Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
1
16 de Dezembro de 2004 às 17:00
Cavaco Silva esteve dez anos no poder, António Guterres seis anos e Durão Barroso/ Santana Lopes tiveram escassos três anos de liderança governativa.
Quanto tempo durará o próximo ciclo político? Será ainda mais curto? Quais as razões por que tal está a acontecer?
A resposta certa não andará longe desta constatação: as democracias representativas, e a nossa em particular, estão no limiar da ingovernabilidade.
O mito da perenidade do crescimento e do desenvolvimento económico, consequente ao dogma da infalibilidade da democracia representativa e da economia liberal de mercado, caiu. Os cidadãos acreditaram neste mito e hoje não estão preparados para nenhum tipo de sacrifícios. Como estava errado Francis Fukuyama, autor de ‘O Fim da História?’…
A globalização, outra panaceia geradora de todos os sonhos, colocou a Europa perante um combate desigual com outros espaços que se organizam com base em princípios e valores diferentes.
Na China, na América Latina, no Paquistão ou na Índia, não existem férias, trabalha-se 12 horas por dia com salários de miséria, o trabalho infantil é uma realidade banal, a defesa do meio ambiente não preocupa ninguém.
A União Europeia de Jacques Delors, François Miterrand, Helmut Kohl e Cavaco Silva tinha um rumo e desígnios fortes e claros. Hoje, o projecto europeu é um barco à deriva, cuja única preocupação reside na busca de fórmulas bizarras de representação dos estados-membros, para garantir determinadas maiorias.
A conceptualização de um novo modelo de desenvolvimento económico e social adequado aos novos desafios civilizacionais não é uma prioridade para a burocracia de Bruxelas. A preocupação em Berlaymont é com a salvaguarda do sacrossanto Pacto de Estabilidade e Crescimento.
As elites dirigentes definham, entre a perpetuação de lideranças gastas e a mediocridade do “aparelho” partidário. Quem se lembra de quem antecedeu Carvalho da Silva na CGTP ou de Bettencourt Picanço à frente do Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública? Ninguém.
Quem imaginaria, uma década atrás, que a última fila do Parlamento seria o campo de recrutamento de uma parte importante dos governantes de Portugal?
Se somarmos a tudo isto a crónica ausência de um projecto nacional, o défice reformista da nossa sociedade e o poder das corporações, o quadro fica muito negro.
Ainda assim, acreditamos, como Winston Churchill, que nada pode substituir a democracia como sistema de Governo. Em 20 de Fevereiro, a vontade popular será soberana. Contra o desânimo e o pessimismo…
Ver comentários