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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Julho de 2004 às 00:00
Escrevi aqui vai para um mês que esta Selecção só tinha hipóteses de fazer um bom Campeonato da Europa se sofresse muito. Sofreu muito e o prémio é a final. Mas não chega.
Depois de termos visto Scolari mudar a equipa do primeiro para o segundo jogo, melhorando-a como toda a gente achava que melhoraria se colocasse os jogadores certos; depois de termos visto Figo fazer comentários pouco adequados sobre naturalizados na véspera da abertura; depois daquela vitória sobre a Espanha sofrendo com toda a gente dentro da área nos últimos minutos; depois daqueles penáltis com a Inglaterra, sobretudo o do Postiga e aqueles que tornaram Ricardo verdadeiramente coração de leão; depois de tudo isto esta equipa cimentou uma capacidade psicológica capaz de arrasar, finalmente, toda a civilização grega.
Mas ainda não bastava, se calhar. Ontem, Rui Costa veio anunciar, por vontade própria porque ninguém lhe tinha perguntado isso, que se retira da Selecção após o jogo de hoje. E, pelo que se percebeu depois, nem teve tempo de avisar Scolari, apesar de estarem juntos 24 horas sobre 24 nos últimos 44 dias. Talvez em resposta ao facto de o seleccionador ter anunciado à Imprensa que continua no cargo até 2006 sem também ter o carinho de avisar antes os jogadores. Uma equipa não é um conjunto de meninos de coro e finalmente percebemos isso em Portugal, mesmo que haja por aí muito assessor em caça às bruxas que criticam Scolari. A língua de pau – aquela em que se dizem apenas palavras, não ideias – passou de moda também em Portugal e assim vamos seguramente dar um salto também no futebol. Porque num grupo reunido tanto tempo tem que haver alguns conflitos e divergências, inevitavelmente, e até é bom que boa parte deles veja a luz do dia, porque isso permite a toda a gente respirar um ar mais puro.
Portugal está, então, nesta final, para ganhar. Tem melhor equipa, o povo tem confiança porque a equipa lha transmitiu e uma final é sempre um jogo à parte. É a primeira final portuguesa e a geração de ouro – umbiguista como todas – já anunciou a passagem de testemunho. Mas há ainda uma ponta de orgulho e de interesse que leva todos a superarem-se, a quererem e a precisarem de ganhar esta final. Neste espírito, mesmo que não seja pelas melhores razões, forjou-se uma certa unidade que tem levado a chamada equipa de todos nós a superar todos os obstáculos. Scolari tem sabido, sobretudo, não criar dramas à volta de nada. Ele está habituado a encontrar jogadores de personalidade forte. E nem ele sabia que havia tantos neste cantinho da Europa.
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