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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

O FUMO E O FOGO

O fumo destes dois casos (Casa Pia e Moderna) tem permitido que as grandes questões (...) passem ao lado do debate público

Francisco Moita Flores 27 de Abril de 2003 às 00:00
Se o tumulto criminal que atravessa o país fosse aquilo que nos é dado em doses maciças pela comunicação social ficaríamos com a ideia de que mais nada acontece,para além do 'caso Moderna' e do 'caso Casa Pia'. O primeiro enche páginas há quatro anos e não tenho dúvidas que poucos sabem que factos ali estão em apreço para além da arenga sobre Paulo Portas. Agora, como casos em julgamento pudessem ser doenças e tivessem recaídas, desataram a chover 'cachas' que revelam, como se de primeira mão se tratasse, cheques para aqui e para ali, escondendo deliberadamente, que todos esses cheques foram reproduzidos na imprensa duas, três, quatro vezes ao longo de anos. Basta ter tido acesso à acusação, e ao relatório da PJ que a suporta, para se descobrir que tudo isto foi notícia há muito tempo. E não houve redacção no país que não tivesse, na altura, cópia da acusação. Portanto, as reedições que agora surgem não trazem novidades. É apenas chover no molhado.
O que se passa em Monsanto é coisa bem mais grave do que esta revitalização de notícias velhas que servem às mil maravilhas como manobras de diversão mas que deixam o rabo do gato de fora. O que ali se passa tem a ver com a destruição quase até aos caboucos de uma das universidades privadas que mais prestígio acumulou no campo do ensino e que, em menos de dois anos, foi espoliada em centenas de milhares de contos (talvez milhões), arruinada no seu prestígio, desacreditada pelo vento de loucura que a destruiu até ao limite. O que ali se passa tem a ver com uma gestão que varreu por completo a sanidade e a trocou por mais de meia centena de automóveis de luxo, por cartões de crédito ilimitados, por almoços e jantares, festas públicas e privadas que de próspera a converteram em arruinada. Mesmo que fosse verdade o tal cheque que pagou o alojamento de Portas em Braga – e pelos vistos não é – o que tem preocupado os jornais, e a política que neles bebe sangue, são os tremoços ignorando as imperiais. Ou seja, as dezenas de postos de trabalho feitos em papas, milhares de alunos com o currículo estragado porque ser da Moderna passou a ser estigma para muitos. Nem se conseguem imaginar os prejuízos.
Quanto ao 'caso Casa Pia' a coisa transformou-se em novela. E rasca. Está criada a ilusão que o problema é Carlos Cruz versus Casa Pia e pronto. Isto contenta o pagode. Mas a verdade é outra. É a existência de uma rede pedófila que durante décadas violou, humilhou, maltratou centenas de crianças e que continua escondida e à espera de ser desmantelada. E como essa verdade não é conhecida, malhe-se naquilo que mais se tem à mão. Agora proibido de falar, com a defesa impedida de conhecer a verdade e de se manifestar, com acusadores e comunicação social geminados na mesma sanha persecutória só os desatentos ou descuidados é que ainda não perceberam que já não vale a pena alguém preocupar-se com a sorte de Carlos Cruz. Está definitivamente condenado. Embora a rede pedófila continue à solta. Mas isso não interessa.
A verdade é que o fumo destes dois casos tem permitido, por outro lado, que as grandes questões associadas à segurança interna, à organização e integração das polícias, à avaliação correcta da criminalidade que aos poucos se instala, e vai ganhando carta de alforria, passem ao lado do debate público. O verdadeiro fogo está fora das preocupações dominantes pelo que não vale Jorge Sampaio vir falar dos desafios que se colocam devido ao terrorismo, à criminalidade económico-financeira, ao crime organizado. Porque até tem razão. Mas isso é pouco relevante num país que apenas se reconhece no 'reality show' que resulta do foguetório com que nos deliciamos.
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