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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Março de 2003 às 01:20
1 - Boavista e F C Porto estão nas meias-finais da Taça UEFA, depois de se terem desembaraçado respectivamente do Málaga e do Panathinaikos, o que significa que, no próximo dia 21 de Maio, em Sevilha, podemos ter uma final portuguesa – a cereja no topo do bolo. Seja como for o trajecto das duas equipas já é uma proeza extraordinária.

2 - A carreira das duas turmas nortenhas, ambas da Cidade Invicta, sugere, uma pergunta: há um 'futebol do Norte' e um 'futebol do Sul'?
A pergunta contém três respostas:
1) Na SuperLiga não há apenas um 'futebol do Norte' face a índices de concentração geográfica, que cria graves assimetrias competitivas no País, como a esse 'futebol do Norte’ está adjacente um tipo de futebol específico, assente em princípios de organização técnico-táctica bem sustentados numa abordagem ao jogo segundo padrões – como dizer? – anglo-saxónicos, conservando-se, todavia, as características de matriz latina, o lado estético.
2) Esse 'futebol do Norte' concorda com um modelo de gestão bem mais adequado às sociedades desportivas que têm como objecto potenciar a modalidade do ponto de vista competitivo.
3) Para além de existir um 'futebol do Norte' existe um 'futebol do Porto', exteriorizado simultaneamente ou em ciclos separados pelas duas equipas da Invicta, que concorre na sua raiz com a 'escola do FC Porto', desde os tempos de Pe- droto.

3 - Mourinho, outrora ajudante de Robson, já sabia o que era a 'escola do FC Porto', nos últimos anos descaracterizada e até devassada pela infeliz circunstância de se ter feito coincidir uma má gestão desportiva e financeira com a acção de treinadores que não conseguiram lutar contra essa súbita e inesperada realidade.
Jaime Pacheco, antigo jogador do FC Porto, num tempo de crescente afirmação do futebol portista nos planos nacional e internacional, sabe o que é essa 'escola'; ela manifesta-se com toda a pujança no Bessa, esta época com deformações na competição doméstica.

4 - Com o crescimento do Boavista nos últimos anos e com as dificuldades exibidas pelo FC Porto nas últimas três épocas, período durante o qual foram cometidos muitos erros, que a acção de Mourinho rectificou num ápice, tornou-se difícil compreender se era o Boavista que jogava 'à Porto' ou se era o FC Porto que jogava 'à Boavista'. Porque a questão central está na raiz e nos conteúdos – e eles representam, indiscutivelmente, a tal 'escola', que ressurge agora com toda a força.

5 - Os princípios do futebol do Boavista e do FC Porto são os mesmos: enorme seriedade profissional, concentração absoluta enquanto dura a competição, espírito de entreajuda sempre presente.

6 - Quando uma ou mais equipas conseguem vitórias no espaço internacional há sempre, entre nós, basicamente no reduto dos situacionistas, aqueles que não têm capacidade para criticar nem para se indignar, a tentação de impor a tese segundo a qual o futebol português é uma indústria de sucesso. Entre esses trapezistas, que jogam toda a vida num falso equilíbrio, sempre com muito medo de cair, incapazes de um assomo de coragem e personalidade perante situações objectivamente deformadas, há até quem coloque o futebol nacional nos píncaros, acusando de inveja aqueles que consideram a modalidade um mal do País. Não sei, não consigo descortinar quem considera o futebol um mal do País. Os portugueses gostam de futebol, havendo os que pouco se preocupam com a sua evolução e os que, talvez mais conhecedores, sentem que, com outra organização e sobretudo outra mentalidade, a bola lusa poderia ser bastante melhor. O que é mais ridículo é falar de inveja, como se os 'guardiões do templo', através da palavra escrita, fossem donos do futebol que temos. Eles não dão conta do ridículo e da bestialidade da presunção.

7 - FC Porto e Boavista vieram provar que são capazes de ser competitivos na Europa. Verificação diferente é o que se passa na SuperLiga, na qual só aquelas equipas jogam como jogam – e mesmo assim com os desvios patenteados este ano pela turma do Bessa –, num clima completamente hostil, de permanente guerrilha institucional, onde se passa o tempo a discutir quem é que foi roubado, à míngua de uma organização e mentalidade absolutamente artesanais e terceiro mundistas.
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