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Correio da Manhã

Opinião
9 de Setembro de 2012 às 01:00

Apesar de tão invulgar (é a primeira vez que acontece em décadas), esta característica tem passado despercebida de notícias, análises e comentadores, o que só se entende, em parte, pelo facto de o ministro para a área, Miguel Relvas, ser nisso o seu contrário.

A segunda é o seu genuíno liberalismo, outra novidade na chefia do governo. Ideologicamente adverso à presença do Estado em muitas áreas, também não vê necessidade duma RTP gorda, preferindo a gestão privada das empresas e o pluralismo dos media sem a presença do Estado.

Acontece que a realidade é a desmancha--prazeres das ideologias. Por exemplo, a proposta liberal de privatizar um canal da RTP poderá resultar antiliberal: apesar de permitir melhorar o serviço da RTP, seria negativa para o funcionamento de todos os media, da TV à imprensa.

A hipótese de ceder a exploração do serviço público a uma empresa privada é igualmente liberal e é atraente. Poderia resultar. Mas enfrenta uma adversidade política insuperável: se Passos a escolher, empenhar-se--á numa guerra cuja última batalha poderá estar perdida a priori: há fortes razões para prever que Belém e/ou o Tribunal Constitucional a impeçam.

Entretanto, teria passado outro ano sem a prometida reforma do serviço público. Outro? Sim. Relvas mostrou incompetência na gestão do dossiê, pelo que só com a nova administração da RTP e o empenho pessoal de Passos se poderá começar.

Supondo-se que o liberalismo também é pragmático, Passos poderá ter de optar por uma opção pragmática, agindo dentro do modelo existente, melhorando o serviço público e também os media privados em geral.

Qual a melhor solução liberal pragmática, hoje? Colocar um canal de TV e um ou dois de rádio em pousio por alguns anos, pelo menos; fechar um ou dois canais da RTP no cabo; fundir a África e a Internacional; colocar a RTP Memória na Internet; acabar com toda a publicidade na RTP (mantê-la, como previsto, é antiliberal, por desvirtuar as regras do mercado); limitar as receitas da RTP exclusivamente à taxa paga pelos cidadãos, dignificando esse imposto com a prestação de serviços de interesse público por uma RTP barata e bem gerida; fazer da criação de conteúdos de interesse público a trave mestra do serviço público.


A VER VAMOS

AS REPORTAGENS CONTINUAM O MELHOR DA INFORMAÇÃO TELEVISIVA

Com linguagem televisiva desenvolta e imaginativa, uma reportagem de Isabel Loução Santos (TVI) sobre a família no Portugal contemporâneo fez de um tema algo abstracto um fresco de casos concretos ilustrativos de novas realidades: uma família do tipo "o meu, o teu e o nosso filho", outra monoparental de pai e filho, um casamento após vida em conjunto (e a diferença para a geração dos pais dos noivos), crianças sem irmãos e mulheres que querem ser felizes para sempre – solteiras. A reportagem concretizava a queda da fertilidade e o inevitável envelhecimento da população. No mesmo dia, a SIC mostrou uma reportagem de qualidade de Joaquim Franco no arquivo secreto do Vaticano: enxuta, informativa, ilustrada.

JÁ AGORA

AO MENOS ADMITA QUE MUDOU

Tenho visto com interesse José Alberto Carvalho abrindo os noticiários da TVI com incêndios, apresentando longas peças sobre incêndios e em directo com os repórteres nos incêndios cercados de chamas de incêndios. É tudo exactamente o contrário do que se fez no seu tempo de director na RTP – quando Sócrates não queria incêndios nos ecrãs, nem na RTP nem nas privadas.

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