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Correio da Manhã

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Francisco Moita Flores

O GOVERNO

Nunca se viu reviravolta igual em tão curto espaço de tempo. Quem assistiu a esta semana com olhos de ver, esconde a cara de vergonha pelo que se disse antes e depois (...)

Francisco Moita Flores 18 de Julho de 2004 às 00:00
A semana foi de delírio. Digna de ser transfigurada em ópera bufa. No início um clamor desvairado contra a decisão do Presidente da República. Ouvimos da boca daqueles que mais acusam Santana Lopes de falta de sentido de Estado (ainda estou para saber quem é o juiz da ética política que decide quem tem ou não sentido de Estado e que coisa é esta) as maiores barbaridades contra Sampaio. A maioria que o elegeu, perdeu a pose, e vá de desancá-lo. Com uma excepção de relevo: a serena declaração de Carlos César que dos Açores implorava que o juízo regressasse às hostes. Ainda não havia governo e já se anunciavam moções de rejeição contra ele. Ou melhor, contra o governo que não se conhecia. E não havia dúvidas: este era o governo mais à direita que a direita alguma vez designara, embora não se soubesse qual era o governo. Era uma crença. E ainda por cima populista. Não seria um populismo à Berlusconi, mas enfim, um populismo, uma coisa que, conforme foi sublinhado, punha a democracia em perigo. Depois Ferro Rodrigues bateu com a porta. Zangado com o populismo e a direita que o seu/nosso Presidente deixara passar. E logo se ouviu falar em ruptura, renovação, na guerra, agora sim, a guerra ia ser a sério contra o populismo, que ainda não se conhece, e contra o governo, que em breve se iria conhecer.
Esperavam os incautos e os crédulos que a modernização e a respectiva guerra seria feita por homens da modernização e guerreiros. José Lamego é exactamente o contrário do populismo, João Soares é um guerreiro. E vai daí, levanta-se a cartola socialista e sai Sócrates. E quem viu a apresentação da candidatura reparou na modernização que as hostes apoiantes mostravam ao País: o penteado de Fernando Gomes está um pouco negligé, a barba de Narciso Miranda mais contida, José Lello não vestia a camisola do Boavista, e o inenarrável Costa surgiu, canoro, mas de fato mais europeu. Ali estava o retrato da modernização, à força de maquilhagem e mudança de alfaiate e todos, claro, contra o populismo. A velha clique guterrista, a mais populista, a mais esfomeada de poder, ali estava, empurrando-se para surgir na primeira fila e o já líder carismático, jovem, adorado pelas mulheres, de palavra fácil (argumentos usados a favor de Sócrates e usados contra Lopes) prometeu o mundo da bondade, da justiça, do amor celestial, proclamando o regresso do Messias, agora para salvar a presidência da República do pântano, de onde ele fugira a galope.
Começa a conhecer-se o governo. E os comentadores que na semana anterior tinham corrido à Bíblia para apanhar os restos das pedras que os fariseus não atiraram a Madalena e desfazer Santana Lopes lá iam recuando. Bom, quer dizer, o governo, pois, se calhar não é bem como se pensava, isto não é mau, pois Barroso brilhava porque era melhor do que o governo, agora parece ser o contrário, enfim, o António Monteiro, pois, sem dúvida é o nosso mais prestigiado diplomata mas é fraco, sabem? A falta de peso político, já o Álvaro Barreto tem peso político a mais, e depois o Mexia tem um problema de altura política, é um problema, mas é verdade, é justo reconhecer que é um melhor governo que o anterior, muito embora o Morais Sarmento, enfim, sabe-se como é, fez o milagre RTP mas na altura não usava barba, e agora, aquela barba é capaz de ser um desvio de esquerda, pois, nem se percebe como homens mais do centro esquerda como o Sanches ou o Negrão não estejam enquadrados, um tem cabelo a menos o outro já tem cabelo branco. Seja como for, é um governo forte, temos de admitir, lá isso, mas enfim, ver para crer, como S. Tomé, ver para crer!
Nunca se viu reviravolta igual em tão curto espaço de tempo. Quem assistiu a esta semana com olhos de ver, esconde a cara de vergonha pelo que se disse antes e depois. E a ruptura no PS mostrou a verdadeira face do que já não voltará. Não serão aqueles velhos rapazes, modernaços, mas viciosos, disfarçados de novos cordeiros mas já carneiros de carne dura que poderão incomodar Santana Lopes e o seu governo que, para os distraídos com tanta barafunda devemos informar que só a partir de amanhã começará a governar. O que significa que todas as críticas até agora feitas não passaram de energia desperdiçada a lutar contra aquilo que não existia. É o que dá estas modernizações apressadas desta oposição sem rumo nem horizonte – Sanchos Panças disfarçados de D. Quixotes.
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