Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9 de Outubro de 2004 às 00:00
Francamente, não vejo nenhuma vantagem no fecho do dossiê ‘Marcelo Rebelo de Sousa’ quando o que se observa são nebulosas, chuva, granizo e grandes temporais. O Governo, a oposição, a TVI, Marcelo Rebelo de Sousa e a Presidência da República não podem estar confortáveis com jogos subliminares, partes da verdade, culpas mal repartidas, rumores, versões contraditórias, etc.
Em democracia estas nuvens negras devem ser neutralizadas pela aclaração dos aspectos controversos e pouco claros da discussão. Um exemplo só. É obvio que neste momento de confusão todas as culpas são assacadas ao Governo. Todas mesmo. E no entanto, a análise criteriosa parece indiciar que há outras entidades com culpas no cartório que passam por ter um comportamento sublime.
Sistematizando toda a informação disponível, podem extrair-se duas grandes conclusões:
a) Quem desencadeou o conflito foi o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, com ataques violentos a Marcelo Rebelo de Sousa, apelidando-o de “mentiroso”, “manipulador” e comentador “cheio de ódio”. As suas declarações são mal enquadradas quando invoca o direito ao exercício do contraditório como se fosse ilegítima a produção de um programa numa estação privada de televisão com um analista/comentador sem a presença de outra voz discordante. Não é ilegítima, nem ilegal, antes constitui-se no modelo mais corrente de um programa com comentador. Mesmo numa estação de serviço público não há nada que impeça a mesma fórmula.
O que torna esta declaração perturbadora é a constatação de que houve diligências da Presidência do Conselho de Ministros para apurar se havia noutros países europeus exemplos semelhantes de análise e comentário e ainda, a nível do PSD, iniciativas do secretário-geral, Miguel Relvas, junto das estruturas distritais para um protesto nacional contra Marcelo Rebelo de Sousa.
Falta clarificar se Rui Gomes da Silva actuou no contexto de uma estratégia delineada no seio do PSD e do Governo ou se a sua intervenção constitui um desabafo individual de ministro enfurecido com as palavras do comentador.
b) Quando foram conhecidas as afirmações, ditadas à Lusa, de Rui Gomes da Silva, Marcelo Rebelo de Sousa informou que responderia ao ministro no “próximo Domingo”. Menos de dois dias depois Marcelo demitiu-se, acentuando que o fazia depois de uma reunião com Paes do Amaral. O patrão da TVI veio posteriormente esclarecer que não tinha sido abordada qualquer hipótese de afastamento do comentador.
Sabe-se hoje que Paes do Amaral pediu a Marcelo moderação nos comentários ao mesmo tempo que sublinhava estar preocupado com a forma negativa como podiam evoluir projectos da Media Capital que dependiam do Governo ou de entidades a ele subordinadas. O que é perturbador no processo são os “medos” de Paes de Amaral, por eventuais represálias do Governo.
O que falta esclarecer é o conteúdo objectivo das preocupações de Paes do Amaral que levaram Marcelo a demitir-se sem mais declarações nem respostas. É este conteúdo que deixará claro se o Governo exerceu ou não pressões sobre a TVI.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)