Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
2
23 de Março de 2003 às 00:23
No entanto, no conjunto das marcas extra-musicais coleccionadas ao longo de 25 anos (e a efeméride está aí agora mesmo, em 2003), sempre se destacou a "mania das grandezas". Sobretudo desde que anunciou ao mundo a sua emancipação face ao controle da grande editora que o lançou e "alimentou" (ou "manietou", como prefiram), Prince Rogers Nelson desatou a publicar duplos e triplos que, por manifesta ausência de "editing", acabaram por atirá-lo para um injusto segundo plano. Isto porque, no campo da música negra misturada, onde o "rock" e o "soul" se irmanavam para a construção de "algo completamente diferente", o rapaz nunca teve rival à altura – nem mesmo quando o mundo preferia os "bons comportamentos" de Michael Jackson aos desbragamentos palavrosos e instrumentais deste herói que também nunca descurou o "funky" e o "jazz".
Faltava a Prince a demonstração, cabal, excessiva, abrangente, do que um registo de palco poderia demonstrar da sua infinita capacidade de renovar e desvairar sobre as suas próprias canções. Desse e de outros pontos de vista, "One Nite Alone… Live!" (ed. NPG Records, que até há bem pouco tempo só podia adquirir-se via Internet e agora já por aí anda, em sistema de importação), corresponde com rigor à festa em atraso desde há muito tempo. Rodeado de músicos de primeira linha, com destaque para os saxofonistas Maceo Parker – esse mesmo, o "de" James Brown e "de"… Pedro Abrunhosa – e Candy Dulfer, da baixista Rhonda Smith e do teclista Renato Neto, Prince atira-se a um CD triplo que, sem barreiras nem lógicas além da escrita pelos seus impulsos e prazeres, corresponde a uma frenética viagem por todo o seu passado e presente. Em ritmo de "jam session", com vários temas a prolongarem solos e "riffs" por mais de uma dezena de minutos ou com "medleys" capazes de encaixar canções em menos de dois minutos, intercala, inventa, inova, provoca, brinca com o público, mostra-se capaz de nunca reduzir a passada, mesmo quando opta por deixar de fora alguns "hinos" que poucos teriam coragem de excluir ("Purple Rain", "U Got The Look", "Sign Of The Times", "Kiss"), numa sequência que agarra ao primeiro momento e se torna cada vez mais magnética.
Há canções quase irreconhecíveis, de "Alphabet Street" a "I Wanna B Your Lover", outras que adquirem dimensões épicas, como as dissertações em torno de "Peach" ou de "Anna Stesia". No conjunto, fica-se perante um argumento com que merecem ser presenteados todos aqueles que, de forma dogmática, pretendem impor como lei a ideia de que os registos de palco são apenas compassos de espera e que pouco trazem de criativo. Como em quase tudo na vida, esse tipo de sentença merece ser sobretudo casuístico – é que, diante de tudo o que se passa em "One Nite Alone… Live!", que até descobre tempo para que Prince convoque para o palco velhos e novos mestres, George Clinton e Musiq, a palavra de ordem é mesmo recriar, sem perder de vista a estrutura das verdades antigas, mas com o incomensurável talento de as reformular sem limites. Os testemunhos, passo a passo, garantem que os músicos se devem ter divertido muito. Quem ouvir, até pelo inesperado da "ressurreição" do génio, não vai divertir-se menos.

TOCA A TODOS

Serão um dos poucos casos de grupo familiar com décadas de carreira que ainda mantém algum humor e uma dose razoável de vitalidade. Mesmo que "Lil' Beethoven" (ed. Edel) possa considerar-se beneficiado por um certo modismo da crítica, vale a pena descobrir em que ponto estão Ron e Russell Mael. Ou seja, os SPARKS. O concerto é quarta-feira, 26, no lisboeta CCB. E será que eles ainda cantam o hino "This Town Ain't Big Enough For Both Of Us", a canção que lhes serve de emblema há trinta anos? n Outra viagem na máquina do tempo: francês de adopção, parceiro de geração de Brassens e Brel, GEORGES MOUSTAKI andou nas bocas do mundo a seguir à Revolução Portuguesa e quando as rádios ainda não excluíam tudo o que escapa ao império anglo-americano. Outra noite de CCB, sábado, 29, para voltar a ouvir "Le Métèque", "Votre Fille A Vingt Ans" e, claro, "Portugal". Hoje, é outra vez canto alternativo, chamem-lhe "parolier" ou arauto dos protestos. Por mim, confesso, não resisto. Nostalgias…

TOCA E FOGE

Confesso que até simpatizo com os rapazes, pelo que me fizeram dançar e cantar nos idos de 80, pela simpatia que demonstraram quando era preciso quanto à causa timorense. Mas isso não invalida que o duplo CD que agora publicam com gravações ao vivo, "How Can I Sleep With Your Voice In My Head" (ed. Warner), não confirme que os noruegueses A-HA são um razoável grupo… de estúdio. Estão lá os êxitos todos, até "Take On Me", mas os arranjos e a concretização nunca ultrapassam a sensaboria. Pena… Nova reclamação contra as falhas das nossas editoras, obcecadas com a formatação transnacional: ANA TORROJA fez parte do trio espanhol Mecano, coleccionador de sucessos até entre nós. Só que da sua carreira a solo se fez silêncio obstinado e pateta. Depois de "Puntos Cardinales" e "Pasajes de Un Sueño", chega a vez de "Frágil" (ed. BMG… espanhola), disco subtil, elegante, cheio de canções clássicas e até de uma correcta versão de "Wish You Were Here". Por cá, é uma "não-entidade", outra vez…
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)