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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Julho de 2005 às 17:00
O cidadão comum começa a ficar perplexo. Semana simsemana não corremos o risco de recessão. Constâncio tornou-se o vilão neste filme de horror que é a história recente do nosso défice e da consolidação orçamental. O homem só põe a cabeça de fora para nos dar más notícias e nos ameaçar. Mas a culpa não é dele. Porque se o fosse teríamos o problema resolvido. É de todos que nunca perceberam que a nossa dependência do exterior e de factores que não controlamos, um dia acabaria, necessariamente, mal.
Não nos zanguemos com Constâncio que não é bruxo e raramente nos diz pouco mais que o óbvio.
Temos imperiosamente de crescer, mas o nosso crescimento sofre de raquitismo crónico. Não passa da cepa torta. Nem com doses maciças de complexos vitamínicos. Crescimento, défice, consolidação orçamental, salários reais, desemprego, poupança, consumo, inflação, investimento, desinvestimento, preço do petróleo e deslocalização tornaram-se uma salada intragável e venenosa.
E o curioso é que parece não haver culpados. Imagine-se. Só que todos sabemos onde eles estão. Podemos publicar uma lista com os seus nomes e fotografias.
São os embevecidos entusiastas da globalização e de todos os sistemas pseudo-liberais estremados. Que encorajaram a deslocalização de capitais. A sua transferência para os países de salários de miséria. Para que os lucros (dos outros…!) pudessem crescer. E que agora se queixam do processo que incentivaram e da invasão dos nossos mercados por chineses e indianos e nos dizem que se não tivermos também salários miseráveis nunca seremos objecto de amores do investimento estrangeiro.
Sócrates vê a solução na revolução tecnológica, mas sabe que começa a entrar, perigosamente, nos domínios da fé. E a Fé só nos garante uma morte serena e feliz.

A Fundação Gulbenkian, que não tem falta de meios e sempre teve por vocação a promoção da cultura, decidiu acabar com o seu grupo de ballet. Um grupo com uma longa história de prestígio que, de certo modo, era um dos emblemas da Fundação. Porquê? Ninguém sabe. Explicações nenhumas. Para poupar dinheiro não foi com certeza, porque então muito mal gerida estaria a ser a “nossa” Gulbenkian.
Provavelmente Rui Vilar não gosta de ballet. E está-se nas tintas para o prestígio da Fundação. Mas não pode fechar-se em copas. E muito menos vir, do alto da sua inesperada sobranceria, limitar-se a declarar que “a decisão é irreversível”.
Não pode assemelhar-se a um qualquer ditadorzeco terceiro mundista e “explicar” as suas decisões com o seu excessivo e intocável poder. Se assim for está demonstrado que foi mal escolhido para o lugar que ocupa. Merecia também a “extinção”. Imediata.
Das duas umas. Ou o grupo de ballet tinha qualidade e o dr. Vilar brinca com todos nós. Ou não a tinha, única razão (mas única mesmo) que poderia justificar a sua extinção.
Portanto cabe ao presidente da Gulbenkian tirar-nos as dúvidas. Seremos todos cegos?
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