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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Maio de 2006 às 00:00
A história é velha e conhecida. Em 20 de Abril de 1999, por ocasião do aniversário natalício de Hitler, os jovens Dylan Klebold e Eric Harris, de dezassete e dezoito anos, oriundos da classe média-alta norte-americana e da elite ‘wasp’ (branca, anglo-saxónica e protestante), entraram no liceu de Columbine, no Colorado, e mataram doze colegas e uma professora. Admiravam Marilyn Manson, gostavam de jogos de computador e detestavam desporto. Cultivavam o estilo gótico e vestiam capas negras que lhes serviram para dissimular armas e explosivos. Escreveram uma nota assumindo sem remorso a responsabilidade pelo massacre e suicidaram-se.
Enterrados os mortos, instalou--se a controvérsia. Questionou-se o fácil acesso a armas de fogo, que, com a intransigência de sempre, os ‘falcões’ continuaram a defender e as ‘pombas’ continuaram a contestar. Como todos os argumentos são reversíveis, Charlton Heston, o actor que dá a cara pela National Rifle Association, sustentou que os indefesos professores e alunos poderiam ter respondido aos criminosos com a mesma moeda se lhes fosse permitido trazer armas ocultas. Especulou-se sobre o contributo da música ‘heavy metal’ e dos jogos de computador para a delinquência juvenil.
Agora, um jovem de vinte e quatro anos, Danny Ledonne, quer perpetuar Columbine. Em vez de enveredar pelo documentário crítico, como Michael Moore, instalou na internet o jogo ‘Super Massacre de Columbine’, proporcionando o ‘download’ gratuito (já feito quarenta mil vezes). Os ‘heróis’ são os homicidas, apresentados com ar risonho e alucinado. O desafio é repetir, e se possível ampliar, os crimes de há seis anos. Procurando o anonimato, o criador do jogo foi denunciado pelo amigo de uma rapariga assassinada, que protestou por ela voltar a morrer, vezes sem conta, às mãos de cada jogador.
Talvez se possa entender que este jogo ignóbil é útil como forma de sublimação, ou seja, de transferência de pulsões violentas. Os adolescentes não terão de repetir Columbine, bastando-lhes “matar bonecos”. O jogo desempenharia função idêntica à dos contos infantis de fadas e bruxas. Porém, a experiência não corrobora tal conclusão. Os jovens que mataram treze inocentes já tinham ‘ensaiado’ em computador e passaram depois ao acto. Não podemos subestimar a influência da cultura de violência no crescimento das pessoas. A internet, sendo uma fonte de informações inesgotável, gera também novos perigos para as sociedades contemporâneas. Por isso, salvaguardando a liberdade de expressão, é necessário ponderar as condições de administração da internet, prosseguindo um debate que a ONU iniciou em 2004.
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