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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Dezembro de 2007 às 00:00
O Sporting venceu o Louletano por 4-0 e seguiu em frente na Taça de Portugal; derrotou o Dínamo Kiev por 3-0, no último jogo da primeira fase da Liga dos Campeões e seguiu para a Taça UEFA.
Dois jogos, duas vitórias, 7 golos marcados e nenhum sofrido, perante um total de 27.264 espectadores (7.862 19.402).
Dito assim, sem olhar ao passado recente, dir-se-ia que a equipa do Sporting se encontra num bom momento de ‘forma’ e a única nota dissonante seria o ambiente desolador em Alvalade.
Acontece que, ao cabo da 12.ª jornada do Campeonato, os leões encontram-se a 12 pontos do primeiro classificado, o FC Porto – a única equipa portuguesa a alcançar os oitavos-de-final da Champions. E essa é uma realidade incontornável, um autêntico labirinto, do qual vai ser muito difícil sair.
Nunca disse, nem digo, que o principal culpado da ‘crise’ é Paulo Bento. O actual treinador do Sporting é, neste momento, aquilo que a Direcção e a SAD quiseram que ele fosse. Alguns excessos protagonizados pelo inexperiente treinador dos leões resulta da passadeira que os dirigentes lhe estenderam, sem se darem conta dos perigos daí resultantes. Paulo Bento inchou tanto que, a certa altura, só tinha duas hipóteses: ou rebentava ou perdia um pouco de ar.
Para já, perdeu um pouco de ar.
Eu sei que, para certas pessoas, é muito difícil reconhecer os erros e dar o braço a torcer, mas, a pouco e pouco, muito dissimuladamente, Paulo Bento lá vai reconhecendo – sem o declarar – a justeza da maioria das críticas.
Paulo Bento só é um dos principais responsáveis pela ‘crise’ na medida em que faz parte de uma estrutura construída ou adaptada à sua imagem e semelhança. Não tem dentro dela, aparentemente, quem esteja em condições de lhe fazer uma observação ou reparo. Isso é muito mau.
Ao contrário do que acontece, por exemplo, no futebol inglês, onde existe ‘open mind’ e uma enorme tolerância para as pessoas se ouvirem, no futebol em Portugal a mentalidade, por ser exageradamente fechada, não consente divergências de opinião. Típico de um país pequeno, em que o culto da personalidade se coloca quase sempre acima das questões fulcrais e essenciais.
O Sporting tem falta de alguns jogadores de qualidade e outros podem denunciar rendimento mais alto se o sistema táctico optimizar algumas das virtualidades mais escondidas.
É claro que, se o Sporting fizer mais jogo exterior e aumentar o número de cruzamentos para a área, a hipótese de Purovic se tornar num elemento proficiente (apesar das limitações de base) é maior.
Um treinador só deve insistir num sistema táctico se lhe der garantias e resposta de exequibilidade e eficácia. O Sporting joga com um lateral activo (Abel) e outro passivo (Ronny). Se os médios interiores não levam o jogo para as linhas e se não o aceleram, o futebol do Sporting torna-se muito previsível.
Depois, há a questão das escolhas: os melhores devem jogar; tenham eles 18 ou 30 anos.
Com Paulo Bento sempre houve uma lógica de favoritismo em relação a certos jogadores que motivou, por exemplo, reacções de animosidade como aquela que Carlos Martins exteriorizou em forma de entrevista.
O grande erro de toda a estrutura do Sporting foi presumir a sua inexpugnabilidade. Com um pouco mais de humildade, poder-se-ia ter evitado uma situação potencialmente fracturante. Agora, se cair um, caem todos, numa espécie de efeito dominó. Esta estrutura do Sporting não aguentará nem mais uma derrota no Campeonato. Por isso, o jogo do Funchal é muito importante, na sequência das vitórias (de valor relativo)frente ao Louletano e Dínamo Kiev.
Se o Sporting, ao invés, continuar a ganhar, mas sem reduzir substancialmente a desvantagem para o FC Porto (pouco provável), que pode fazer, entretanto? Tudo menos contratar jogadores que já estiveram em Alvalade e não se conseguiram afirmar nos seus novos clubes. Isto é: dar oportunidade aos jovens, mostrar uma mentalidade mais aberta, fazer regressar um ou outro ‘emprestado’ e não criar mais... ‘pessoas não gratas’. Olhar para dentro é o caminho, aprendendo com os exemplos de fora.
Nota – Num lindo dia de sol, o Tratado de Lisboa serviu para projectar o nome de Portugal e valorizar o currículo de José Sócrates.
Nota 1 – Milhões gastos nas cimeiras, o orgulho a subir e os portugueses em derrapagem.
Nota 2 – Portugal descobriu a sua vocação para receber líderes mundiais. Estava tudo muito bonito...
Nota 3 – José Sócrates pode ignorar o Portugal real mas vai ficar na história da política europeia.
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