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Correio da Manhã

Opinião
9
3 de Abril de 2005 às 17:00
A evangelização do sofrimento, protagonizada pelo Papa João Paulo II, vai ficar como uma das imagens mais fortes deste século. O sofrimento que se abate sobre o Mundo de uma forma glosada por alguns políticos deste País, um dos quais candidato a líder do maior partido da oposição, que faz uma discrição sobre as suas ‘humildes’ deambulações pelo planeta, com especial incidência sobre o centro do Pacífico, ao que se sugere perfeitamente ao alcance de qualquer cidadão português, hoje por hoje - pelo que deduz das coisas singelas vividas por quem tem a pretensão de um dia governar Portugal! – cada vez menos confrontado com problemas sociais como o desemprego e os efeitos de uma crise económica que não pode deixar de afectar a qualidade de vida de um povo cansado de esperar por uma luzinha ao fundo do túnel.
Eu não digo que as pessoas não tenham o direito e o prazer de saborear as coisas boas da vida, que não é igual e nunca será igual para todos. Descobrir ou redescobrir o Mundo é sempre um exercício cultural, mais ou menos lúdico. Mas o que não suporto é ver pessoas com responsabilidades políticas fazerem-se de pobres diabos, amantes da simplicidade e da não arrogância, quando falam de barriga cheia, sobretudo quando não têm a noção mínima das suas incongruências, das suas posições oportunísticas do momento, ora ao lado de Pinto da Costa, ora ao lado de Rui Rio, ora contra os dois (se fosse necessário) numa ‘visão cega’ de obtenção de poder.
A evangelização do sofrimento, protagonizada por aquilo que será sempre observado pela agonia activa de João Paulo II, com expressão máxima naqueles derradeiros momentos em que tentou em vão dirigir a palavra aos fiéis, foi a dor do silêncio aos gritos. Um aviso ecuménico a todos aqueles que andam distraídos com as suas patranhas nos corredores cada vez mais estreitos da política. As larvas deixadas pelo santanismo ainda se inquietam à procura de um novo fôlego. Marques Mendes talvez não seja o melhor candidato que o PSD teria para lançar para a liderança, mas pelo menos tem conseguido fugir àquele registo fácil e demagógico de quem se serve das ocasiões para pular mais um galho. De acordo com um esquema velho e estafado: procurar protagonismo junto das tribos do futebol e marcar espaços e tempos na agenda mediática. Ainda bem que Santana Lopes, em tempos indignado por Dias da Cunha não ter visto a sua presidência no Sporting sufragada nas urnas, acabou por provar que esses expedientes não chegam. ‘Estar’ na política, no futebol e na comunicação social, mesmo num País pequeno em que todos são primos de todos, o que dificulta o exercício das lideranças e da autoridade do Estado, em razão do convencimento de que é preciso estar bem colocado para, explorando as fragilidades do sistema político e judicial, saltar os obstáculos, não pode ser a única ‘via de sucesso’, sobretudo se ela estiver afectada, como está em muitos casos, de um problema de falta de credibilidade.
A CULTURA DA MEDIOCRIDADE
A falta de credibilidade de alguns políticos (dentro do PSD essa purgação pode estar a meio caminho) não é, obviamente, boa para o País e substituir os demagogos e vendedores de promessas e ilusões é tão urgente na política como no futebol.
A mediocridade está instalada em muitos sectores da sociedade (não é só a Superliga que está nivelada por baixo), cujo fenómeno está associado a uma fatal e grave crise de exigência. Atente-se no (mau) exemplo da Selecção Nacional: foi à Eslováquia, Ricardo evitou o pior, a equipa das quinas chegou ao empate e, no final, Scolari erguia os braços em sinal de vitória.
Bem sei que os tempos não estão bons para os jogadores portugueses nem para a Selecção, mas, que diabo!, fazer da qualificação para a Alemanha algo de muito especial (recorde-se que Portugal não teve de se apurar para o Euro-2004, o que significa que Scolari tem tido a missão muito facilitada, se atendermos à qualidade dos adversários reunidos neste Grupo 3 para o ‘Mundial’) não parece apropriado para quem está colocado entre os primeiros dez classificados do ‘ranking-FIFA’!
O problema é que Madail está sempre mais preocupado com os críticos e comentadores do que com os problemas reais do futebol nacional, o presidente da FPF acha sempre que está tudo bem; aquilo que Nuno Gomes disse é ‘uma questão do coração’ e Scolari já parece contagiado por esse ‘madailismo’, cujo caminho para a cura é um antídoto que ninguém tem coragem de aplicar. Reina a mediocridade e só num clima de total permissividade se pode aceitar que um jogador que prestou serviços relevantes ao futebol nacional (Figo) possa retornar à Selecção quando e à hora que quiser, depois de achar que era uma chatice andar a jogar nas ‘Estónias’ e era tempo para dedicar ao seu clube e à família. A Selecção não é um emprego, não é uma opção profissional; é – embora não pareça – a bandeira e significa a representação do País.
O LAMAÇAL
Já disse, publicamente, que esta Superliga está ferida de morte. Não é apenas o impasse que dura há anos para se fazerem as reformas estruturais que o futebol português necessita. Não considero despiciendo, sublinho, a conjuntura do futebol internacional, também ela muito afectada com os erros cometidos nos últimos anos, durante os quais se achou que o dinheiro não se esgotava e era fácil ganhá-lo. Hoje esse dinheiro está, maioritariamente, nas mãos de pessoas com menos escrúpulos, pouco preocupadas com o desenvolvimento da modalidade e com os seus reais e preocupantes problemas. A ética deixou de fazer sentido e quem a defende ainda é considerado estúpido e ingénuo. Chegámos, enfim, a este ponto.
No nosso caso, o processo ‘Apito Dourado’, que caminha para a sua fase crucial, apesar de haver muita gente responsável no futebol a assobiar para o ar, comportando-se como se nada se estivesse a passar, não pode deixar de afectar as competições (não) profissionais. Apesar do princípio sagrado da presunção de inocência, que estará sempre subjacente aos meus comentários nesta matéria, ser arguido num processo em que existem fortes indícios de corrupção (activa e passiva) é - para quem nomeia os árbitros para as provas da Liga - exactamente igual a não ser arguido. Isto é: esse factor (que pode ser psicologicamente inibidor e não só) não conta nos critérios de Luís Guilherme (na caricatura). Mas já vale quando está em causa o vogal da CA, Júlio Mouco, constituído arguido no mesmo processo, que (segundo os relatos da imprensa) pôs em causa a reputação de árbitros como Pedro Proença, Duarte Gomes e Olegário Benquerença. Aliás, se Luís Guilherme está rouco e outro é Mouco, louco é quem acredita nas lesões súbitas de um conjunto alargado de árbitros.
A arbitragem é um lamaçal e quando Guilherme não distingue um lagarto de um crocodilo está tudo dito. Aliás, basta seguir o critério das suas nomeações. Depois do escândalo do ano passado no Bessa, com Bruno Paixão, e com a reabilitação deste feita cirurgicamente por Luís Guilherme, há quem lhe possa conferir credibilidade? E considerando esse escândalo e ainda o facto de Lucílio Baptista também estar apontado como arguido não seria de evitar a sua nomeação para o jogo de ontem no Porto?
O futebol está na lama e há quem goste de chafurdar nela.
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