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Correio da Manhã

Opinião
17 de Março de 2007 às 00:00
Não vejo o FC Porto capaz de repetir a pobre figura que fez perante o Atlético (Taça) e o Estrela da Amadora (Liga). O FC Porto tem neste jogo com o Sporting o começo do ataque sustentado à revalidação do título para evitar qualquer tipo de ‘tremideira’ quando entrar, quinze dias depois, no Estádio da Luz. Os ‘meninos’ do Sporting já foram capazes do melhor e do pior e vão disfarçando, como podem, algumas contradições que emanam do ‘universo verde e branco’.
O Sporting passa por ser um clube formador. Sempre teve essa fama e tem tido, como se sabe, algum proveito. A realidade, nua e crua, é que o maior proveito tem sido dos seus principais adversários. O melhor jogador do Benfica (Simão) foi formado no Sporting. O melhor jogador do FC Porto (Quaresma) foi formado no Sporting. Um dos cinco melhores jogadores do Mundo (Cristiano Ronaldo) foi formado no Sporting. Um dos melhores jogadores mundiais da última década (Figo) foi formado no Sporting. Que mais têm em comum todos estes jogadores? Duas coisas. Primeira: não renderam em Alvalade aquilo que viriam a render noutros clubes, nomeadamente em emblemas portugueses. Segunda: saíram a um custo baixo, considerando aquilo que passaram a valer noutras paragens.
É uma encruzilhada esta, a do Sporting, sabendo-se, como se sabe, que os Clubes não estão tão protegidos como deveriam em matéria de incentivos à formação.
Esta decisão do Supremo Tribunal de Justiça em relação ao ‘caso Zé Tó’ repõe a verdade em relação às cláusulas de rescisão que, na verdade, nunca tiveram nenhum valor. Apenas um valor simbólico. Não faz nenhum sentido que um jogador que ganhe, por exemplo, 10 000 euros por mês tenha no seu contrato uma cláusula de rescisão de 20 milhões. Por outro lado, a FIFA, com a sua arrogância, já estragou tudo o que tinha a estragar: convenceu-se de que era capaz de pôr o Mundo a girar em função do seu tempo e para o seu tempo. Até certa medida, até o conseguiu. Por causa da força e do impacto do futebol e das relações estabelecidas a partir dele (o futebol é uma espécie de capital económica do globo terráqueo), os países capitularam do ponto de vista da manutenção e consagração da sua soberania. O ex-jogador que provocou o maior terramato até agora conhecido no universo da bola, Jean-Marc Bosman, agora com 42 anos, e com uma vidinha remediada, longe do luxo e da luxúria de outros que se aproveitaram da sua coragem, diz que “se há direitos para um jogador e se um juiz os reconhece, a FIFA terá de adaptar-se”. Pois: a FIFA adapta-se àquilo que lhe convém para manter o (grande) negócio-futebol. Não joga sempre ao ataque perante os tribunais comuns porque tem a noção de que não pode esticar a corda. Força mas vai apenas até onde julga poder ir. Não compra ‘guerras’ a qualquer preço. Recua quando tem de recuar. Mas há muitos países, como Portugal, que se submetem aos ditames da FIFA. À ditadura da FIFA. Diz ainda Bosman: “Os regulamentos da FIFA são obsoletos e, perante eles, os jogadores são escravos dos clubes.”
Previsivelmente lá virão os empresários, quais tubarões, a aproveitar-se desta situação. São eles que começam por colocar os jogadores contra a sua própria entidade patronal. Alguns destes empresários são os primeiros desestabilizadores do rendimento dos jogadores. Veja-se o caso de Nani. De facto, não está em causa o que ganha o jovem ‘leão’ nesta fase do seu crescimento. A questão está no que ganham outros jogadores, claramente sem potencial de crescimento e que nunca se constituirão em grandes negócios para o Sporting, como são os casos de Tello (caso antigo), Bueno, Farnerud, Paredes ou Alecsandro. Estes são os maus negócios. Esta é uma política de terra queimada que tem altíssimos custos para o futebol ‘leonino’. Neste aspecto, há que dizê-lo, o leão vai nu, mas não está sozinho no futebol português. Contratar mal, ao contrário do que para aí se pensa, não pode ser considerada uma inevitabilidade, considerando as fragilidades da economia do futebol nacional.
Neste contexto, a aparição de Fátima (Lopes) teve o efeito de vestir o Sporting e criar-lhe uma imagem desfocada da realidade. Os ‘leões’ ficam mais bonitos mas o pior é o que está por detrás dos modelitos e do bom gosto. O ‘leão’ pode estar na moda, ser ‘fashion’, mas continua a lutar pela sobrevivência.
BENFICA AGUENTA-SE NA EUROPA
Não foi fácil, mas também é verdade que o Benfica complicou. Começou por complicar em Paris e, anteontem, na Luz... também começou por complicar. O PSG foi a ‘primeira equipa’ a ‘entrar’ no jogo. Mas como o Benfica tem, dentro do ‘onze’, ‘bocados de equipa’ muito bons e jogadores, individualmente, capazes de fazer a diferença, tudo se compôs. Nuno Gomes e Simão aproveitaram uma das maiores fragilidades dos parisienses (a má organização defensiva) para construir a jogada do primeiro golo e Petit teve um momento de rara inspiração para tentar sossegar uma águia que até aí tinha realizado um voo irregular. O golo de Pauleta (’frango’ de Moretto) voltou a desestabilizar o Benfica, que festejou a passagem aos quartos com uma ‘boa arbitragem’.
O Benfica paga muito bem a Simão mas, no campo, Simão ‘é’ o Benfica.
NOTA – O Espanhol não é nenhum papão. Logo...
QUADRO DE HONRA
A HORA DE SIMÃO
Encostado à linha, no lado esquerdo, onde vinha actuando há largo tempo, ou mais solto, numa posição atrás dos pontas-de-lança ou mesmo em terrenos mais avançados, ao lado de Miccoli, Simão vem exibindo uma nova dimensão como jogador. Foi a partir do meio, nas costas do italiano e de Nuno Gomes, que Simão estilhaçou o que ainda restava do frágil PSG. A sua capacidade técnica é reconhecida, a combinar com a dita cuja que se revê em Miccoli e Nuno Gomes. Eles constituem uma espécie de triângulo muito ‘escaleno’, híbrido e flexível. As ‘tabelinhas’, o futebol a 1-2 toques, as assistências cirúrgicas (quase sempre curtas) são a imagem de marca do ataque do Benfica. Simão recuperou a ‘forma’ física e, liberto, sem as amarras impostas pela presença de Rui Costa, joga praticamente em cinquenta metros, na vertical e na horizontal, recorrendo a movimentos diagonalizados para estabelecer rupturas na defesa adversária. Ultrapassadas as ‘estórias’ que falharam a transferência para o Liverpool e Valência, talvez seja boa hora para se pensar num bom negócio. Para ele e para o Benfica.
A CEGUEIRA DA FPF
Mais uma vez a FPF a ver passar os comboios, agora no ‘caso Zé Tó’. Desta vez é o Supremo Tribunal de Justiça a lançar o aviso de que os jogadores, se quiserem, não têm de ser escravos. A FPF, na sua decantada vocação de gerir os calendários das Selecções Nacionais e entrar no fait-divers dos auto-elogios, não antecipa uma medida, não toma uma medida, não estimula o diálogo com os seus parceiros, não estreita relações com a União Europeia e... ignora o ‘Apito Dourado’ (ao contrário do que a ‘justiça desportiva’ italiana fez). Para além de há muito se saber que as cláusulas de rescisão nunca foram mais do que situações artificiais para ‘fixar’ os jogadores. Não servem para nada... em nenhum país da Europa.
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