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Correio da Manhã

Opinião
13 de Agosto de 2010 às 00:30

Fé na inocência de Sócrates. Fé na integridade de Sócrates. Fé nas perseguições a Sócrates. Não estamos a falar de assessores, engraxadores ou simples boys: toda esta gente tem uma carreira de décadas, provas de independência dadas e não precisa dos favores do primeiro-ministro para coisa nenhuma. Daí que os textos que assinam nos jornais onde escrevem sejam hoje para mim uma espécie de policial de Verão, um mistério que urge resolver: como é possível que pessoas livres, inteligentes e que lêem os jornais todos os dias possam ainda assim partilhar a tese de que José Sócrates é o primeiro-ministro mais perseguido desde o 25 de Abril? A resposta óbvia, tipo "foi o mordomo", é esta: apesar de todos os casos que foram levantados nos jornais e na justiça, nada foi provado, e todos somos inocentes até prova em contrário. Mas esta tese esquece dois aspectos fundamentais.

Em primeiro lugar, aceita à partida que não há qualquer distinção entre responsabilidade criminal e política, o que é inadmissível num regime democrático. Da licenciatura na Independente ao Freeport, aquilo de que muitos acusam Sócrates (eu incluo-me no grupo) não é de ter praticado actos criminosos (não faço ideia se os praticou), mas o de ter promovido a opacidade e recusado dar explicações convincentes sobre suspeitas sustentadas.

Em segundo lugar, do Freeport ao Face Oculta, o próprio argumento do "nada se provou" é um paradoxo, porque aquilo que se discute é precisamente a forma como altas figuras da justiça dificultaram que alguma coisa se provasse. Donde, alguém me faça o favor de explicar tanta fé no primeiro-ministro. Eu, francamente, não consigo perceber.

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