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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Junho de 2012 às 01:00

Itália e Espanha vão, assim, disputar o ceptro do futebol europeu, após uma semana em que os seus primeiros-ministros lograram dar passos importantes na suavização do combate à crise económica e financeira que os aflige e que também afecta outros países do Sul, nomeadamente Portugal e Grécia.

Espero que Portugal saiba aproveitar a margem de manobra alcançada pela frente ítalo-espanhola. Já chega de ser bom aluno e exige-se de Passos Coelho que reclame tratamento semelhante. Apesar de ter ficado provado que Portugal é encarado como uma espécie de caganita, não pode haver filhos e enteados no clube europeu. A preocupação de cumprir o memorando da troika e de colocar o País a viver de acordo com a riqueza que produz não invalida que reclamemos a suavização do processo de ajustamento a fim de minorar os efeitos devastadores sobre a nossa economia. Não se trata de reconhecer a justeza das reclamações de António José Seguro. Tudo bem espremido, as suas posições coincidem, no essencial, com as políticas em curso, mesmo que Vítor Gaspar (aliás, inutilmente, como se vê pelo agravamento das derrapagens da execução orçamental) carregue mais fundo nas notas do acordo com a troika, subscrito por Sócrates, do que o PS diz ser necessário. A diferença é mais de tom do que de substância e percebe-se no contexto da nossa política doméstica. Na pele de Passos Coelho, Seguro seria tão cordeirinho quanto ele perante Bruxelas e Berlim. Acredito que nem a chegada de Hollande ao poder, em França, ainda que lhe dando algum conforto, o tornaria mais corajoso. Voz grossa só mesmo para português ver.

No fundo, Passos e Seguro não ladram. Piam. São duas aves que partilham a mesma gaiola, diferenciando-se, apenas, pelo trinado, género melro e periquito. Só mandam alguma coisa na medida em que a Europa permite. Ontem mesmo, ouvi um empresário exportador dizer que, dos Governos, não reclama subsídios nem benesses. Apenas que o deixem trabalhar e que cumpram os seus compromissos, nomeadamente no reembolso dos impostos, a tempo e horas. Atrevo-me a dizer que essa sim, seria uma reforma estrutural profunda, porventura mais importante do que muitas das que enchem a boca dos governantes e que raramente saem do papel ou que, quando surgem, não passam de versões mitigadas do que fora prometido. O caso das autarquias é um exemplo esclarecedor.

SOLTAS

BURACOS DE GASPAR

O défice saltou para 7,9% no primeiro trimestre. Fica mais longe a hipótese de se atingir a meta que Gaspar acertou com a troika e ressurge a ameaça de novos apertos de cinto. Quanto mais Portugal ficar entregue a si próprio, pior será. Caminhamos a passos largos para entregar mais soberania a Bruxelas.

QUANTO PIOR MELHOR

Os pilotos da TAP vão entrar em greve. Não há argumento que justifique tão radical opção nesta altura. Com o Verão à porta e o afluxo de turistas, é fatal para o País. Ainda por cima, a privatização está à porta. Entristece-me tamanha irresponsabilidade numa empresa estratégica e cujo serviço aprendi a respeitar.

QUASE TUDO

Por sugestão do meu filho, levei para ler, na minha última viagem, ‘1Q84’, de Haruki Murakami. São 487 páginas de contacto com uma bela obra de ficção do japonês, eterno candidato ao Nobel. A leitura cativa desde o início. Há momentos em que a Literatura nos dá quase tudo...

NOTAS (Escala de 0 a 20)

15 PAULO BENTO

Conseguiu o mais difícil: fazer com que Portugal voltasse a ter uma selecção. Dos cacos de Queiroz, construiu uma equipa com ambição e espírito de luta.

7 VÍTOR GASPAR

A execução orçamental do primeiro trimestre foi um desastre. De salvador da Pátria e Messias anunciado, arrisca-se a ir engrossar a fila dos coveiros.

6 RICARDO RODRIGUES

Condenado por crime de atentado à liberdade de imprensa. Tirar gravadores aos jornalistas, quando confrontado com perguntas incómodas, saiu-lhe caro.

6 MARQUES JÚNIOR

O Conselho de Fiscalização das secretas não atribui responsabilidades a ninguém nas polémicas que envolvem os serviços. Cegueira perante a culpa.

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