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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Setembro de 2007 às 09:00
Hoje é dia de heresia. Apesar de ser bem conhecida a aversão do sistema educativo ao mercado e ao consumo, talvez houvesse algo a aprender com esse outro mundo. A atenção colocada no estudo do consumidor, dos seus gostos e dos seus comportamentos, precede quase sempre a acção de lançamento de um produto para o mercado. Esta atenção centrada no cliente--consumidor foi simultaneamente causa e consequência de uma importante revolução. A diversidade de oferta, a concorrência, a necessidade de fidelizar clientes, o risco de ser penalizado quando se cometem erros, a urgência de permanentemente ouvir as sugestões, as críticas e as propostas dos consumidores fez com que os produtores deixassem de ser reis e senhores e se centrassem definitivamente nos clientes como caminho para o seu sucesso.
Esta comparação, que pode soar a heresia no contexto do sistema educativo, serve, neste caso, para sublinhar um dos mecanismos de funcionamento do mercado – o perceber muito bem o alvo da comunicação. Claro que a Educação não é igual à venda de sabonetes ou cereais. Todos sabemos disso. Nem se pode falar dos estudantes como de clientes, stricto sensu. No entanto, o que pode ser idêntico é a noção de que para comunicar com eficácia (e educar exige comunicar com a eficácia máxima) é indispensável compreender muito bem o nosso interlocutor. Isso obriga-nos a ir muito mais longe do que o modelo educativo actual. Além de saber o que quer ensinar e como quer ensinar, precisa de conhecer profundamente os estudantes. Não pode limitar-se a exigir ao estudante que aprenda obedientemente o que se ensina, independentemente de se ensinar bem ou mal, ou mais grave ainda, se ensina o importante ou o acessório. Acresce que como não cuida suficientemente de se avaliar a si próprio, estranha o insucesso e simplifica a culpa, situando-a exclusivamente no estudante.
Essa opção radical de centragem no estudante não obriga, no entanto, a uma atitude ‘seguidista’ que torne o processo educativo refém de sondagens ou estudos de mercado. Há que saber situar esta atitude como meio indispensável – e não como um fim – para o sucesso do ensino/aprendizagem de saberes e competências essenciais.
Quando se encontra alguém de uma língua/cultura diferente, é importante aprender essa língua (ou ter um outra língua comum) para poder comunicar plenamente. Isso pode ser essencial, para nos expressarmos adequadamente de forma que, no outro contexto cultural, seja perceptível o que dizemos. Assim torna-se igualmente necessário, no processo educativo, que os seus principais actores (pais, professores e outros educadores) saibam aprender a ‘língua’ e os costumes dos ‘estrangeiros’ (não de outra terra, mas de outro tempo) que vivem nas nossas escolas. Se o sistema educativo não tornar hábito estruturante o estudo e a compreensão dos seus estudantes, em cada segmento do tempo e do espaço, corre o risco de elevada taxa de ineficácia e concluir como frustrante a sua acção.
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