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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

O monstro de Beja

Não é caso único a execução de um crime como aquele que esta semana chocou o país, com um tal Francisco a assassinar a mulher, a filha e a neta. Não são raros estes casos, embora sem peso na estatística criminal. Todos os anos surgem notícias de indivíduos que liquidaram as famílias e que no final da eclosão da violência puseram termo à vida. A revolta, a dor e a misoginia produzem esse caldo de violência que leva à chacina.<br/><br/>

Francisco Moita Flores 19 de Fevereiro de 2012 às 01:00

Porém, a contextualização macabra do evento é, na realidade, uma situação sem paralelo na história da criminalidade das últimas décadas. Em primeiro, o instrumento do crime. A catana, como qualquer arma cortante, não tem a impessoalidade nem a rapidez do disparo de uma arma de fogo. Obriga a matar numa relação mais íntima com a vítima, e, tendo em conta que foram três, ao prolongamento da violência descontrolada por muito mais tempo. Depois, o epílogo desta brutalidade assassina não foi idêntico ao de outros casos conhecidos. O homem não se suicidou nem se entregou às autoridades. Dissimulou a matança e durante vários dias conviveu com os cadáveres, cumprindo os seus quotidianos com aparente normalidade. Mas não os enterrou nem os fez desaparecer, sinal evidente de que desejava uma punição pelo sucedido, afastando a hipótese, muito simplista, de se tratar de um inimputável. Finalmente, depois da prisão, passados alguns dias, decidiu cumprir o seu destino e suicidou-se.

O excesso de violência e o horror que sobressai desta tragédia levam à procura das explicações para aquilo que aconteceu e surgem as mais disparatadas justificações. Um desfalque cometido há vinte anos, uma relação incestuosa e mais um manancial de informação especulativa, até maldosa e trapalhona, que mais não é do que a necessidade de darmos sentido a uma situação sem sentido. A explicação psiquiátrica é sempre a mesma: o homem era psicopata. Como é que eles sabem que era psicopata sem avaliação clínica? No fundo, uma banalidade igual a tantas outras que mais não fazem do que exprimir o nosso luto colectivo, a nossa recusa de aceitação de factos com a dimensão monstruosa daqueles que conhecemos. Sei que Beja está de luto e em choque. Mas na verdade, ficámos sem saber o porquê. Não houve tempo para perceber. O monstro suicidou-se. Que a terra lhe seja leve.

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