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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Fevereiro de 2009 às 09:00

Ao assistir ao espectáculo televisivo das últimas semanas lembrei-me de um velho provérbio português, que diz: "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Assim parece ir o Mundo e Portugal. Na América, o novo secretário de Tesouro de Obama ralha com a China porque mantém a sua moeda desvalorizada. Obama, por sua vez, ralha com os banqueiros. Os trabalhadores ingleses, esses, ralham com o seu governo, e com os trabalhadores portugueses também, pois não os querem em Inglaterra. O governo inglês, obviamente, ralha com os seus bancos por eles não darem crédito. Já os economistas, premiados com o Nobel ou não, ralham com os políticos e com os bancos. Por cá, o PSD, o PP, o Bloco e o PCP ralham com o Governo, em especial com Sócrates, que ralha por sua vez com os jornalistas e com as "forças ocultas" e manda Santos Silva ralhar com o Bloco e o PCP. Com a crise a agravar-se a olhos vistos, aumentou exponencialmente o uso mundial do ralhete. Toda a gente ralha com toda gente, sinal de que a frustração e a impotência são gerais.

A originalidade alarmante desta recessão mundial é a sua aparente imunidade aos remédios tradicionais propostos nos manuais de economia. No passado, as graves crises ensinaram que os bancos centrais têm de baixar as taxas de juro para facilitar o crédito e evitar a falência da Banca; e que os governos têm de gastar mais para contrariar a recessão. E isso tem sido feito: na América e na Inglaterra, as taxas de juro estão próximas de zero e mesmo na Europa estão muito baixas; os governos têm-se multiplicado em pacotes, anunciando investimentos. Contudo, como disse Krugman, a política económica "não tem tracção". É como se o carro continuasse a patinar na lama, os pneus afundando--se cada vez mais.

A realidade é evidente e frustrante: hoje, governos e bancos centrais são impotentes para controlar uma crise planetária. A globalização financeira foi tão profunda que gerou um monstro internacional que nenhum país consegue domesticar. O monstro, descontrolado e tóxico, é um colossal fogo que arde sem se ver e que lentamente vai asfixiando as economias. A sua fúria cega engrossa o desemprego e alimenta uma frustração generalizada, que a prazo pode pôr tudo em causa: o comércio internacional, o euro, a Europa Social, os regimes políticos, os partidos, os consensos sociais e até, quem sabe, as próprias democracias. Casa onde não há pão...

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