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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Novembro de 2010 às 00:30

O aprazível mundo do engº Sócrates é sucessivamente incomodado pela realidade, o que, como se sabe, o faz mudar a cada semana que passa. Nesse mundo longínquo, nós não íamos ser atingidos pela crise; depois, íamos ser os primeiros a sair da crise; e agora, à beira do abismo, vamos, finalmente, comportar-nos de forma exemplar, cumprindo escrupulosamente o Orçamento e fingindo que somos todos amigos, não vão os malditos mercados descobrir que o dr. Passos Coelho não está de alma e coração com a catástrofe que o Governo se encarregou de criar. Chegados aqui, é óbvio que, dentro de pouco tempo, o mundo do primeiro-ministro vai tornar a sofrer mais uma mudança que terá o condão de justificar a vinda do FMI e o descontrolo orçamental.

Enquanto isso, e dado que estamos a chegar ao Natal, uma época propícia à boa-vontade, o país segue como habitualmente, entre o caos e o compadrio, comprando, com carácter de urgência, seis blindados para a cimeira da NATO que, por razões que só o ministro da Administração Interna conhece, começaram a chegar aos bochechos muito depois de a cimeira acabar. Com uma lógica insondável, o Governo sussurra pelos jornais que os seus portentosos blindados – que, como se viu, eram absolutamente dispensáveis – vão andar aí pelos bairros problemáticos de Lisboa, prontos a acudir ao menor distúrbio, tentando desesperadamente pôr ordem em ruas onde nem sequer conseguem entrar. Este pequeno percalço, que nos custou cinco milhões de euros, é, na sua crua simplicidade, um verdadeiro tratado sobre a forma como se governa em Portugal: de desperdício em desperdício até à bancarrota final.

Noutra frente, na Assembleia da República, onde PS e PSD aprovam pacatamente o Orçamento na especialidade, ficou-se também a saber, por estes dias, que a redução de salários para a Função Pública, decretada pelo Governo, não se estende ao admirável mundo das empresas do Estado, onde se passeiam passivos astronómicos, devidamente condimentados por um florescente conjunto de boys e de girls dos dois partidos que, uma vez nomeados à pala de qualquer favor, deixam de poder passar sem os privilégios da praxe. Aparentemente, a fuga de quadros anunciada pela administração da Caixa Geral de Depósitos – já agora convinha saber para onde é que esses cérebros tencionavam fugir – é um exclusivo que se aplica apenas a gestores incompetentes e a empresas, como a TAP, que sobressaiam pelo prejuízo. O que vale é que o mundo do engº Sócrates vai ter, mais uma vez, que mudar.

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