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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Março de 2003 às 01:46
As manifestações pela Paz não têm contraponto em lado algum do mundo e a razão é compreensível: quem marchasse a favor da intervenção militar dos aliados seria catalogado como um cruel apoiante da guerra, insensível ao sofrimento humano e, portanto, um irresponsável, quando não mesmo um louco, mesmo que só ali estivesse por convicção de que o terrorismo realmente existe e tem de ser combatido com coragem.

Só assim se explica que sejam alguns dos extremistas de ontem a fazerem o papel de cândidos defensores de mais uma utopia: um mundo sem potência(s) dominante(s), onde tudo se discutisse serenamente no Conselho de Segurança das Nações Unidas de tal maneira que o verbo submetesse de forma obediente qualquer candidato a terrorista.

Os Estados Unidos lá estariam, serenos, a servir de antena aos ódios e de resguardo aos pares: quando fosse preciso, e só nesse último caso, eles avançariam sempre, porque são o único Estado habitado por seres capazes de jogar a Vida pela segurança de todos.

A Europa investiria na cultura e na boa vida; o resto do mundo poderia continuar a sofrer e os norte-americanos seriam os nossos soldados-polícias, como no Kosovo.

A ideia é tentadora.

Em Portugal, o movimento tem um líder natural e inteligente, Francisco Louçã, e um derrotado óbvio, Ferro Rodrigues.

O primeiro, brilhante demagogo, não deixará de retirar os devidos dividendos eleitorais da sua sagacidade e tenacidade políticas, que tão depressa o colocam dentro de um autocarro a caminho de Sevilha como de um avião rumo aos Açores – mais tarde ou mais cedo será um importante líder da Esquerda que a ortodoxia do PCP delapidou; o segundo, provavelmente, terá de pagar alguma coisa pela tardia adesão ao novo frentismo, que perdeu a oportunidade de liderar, como era desejo de alguns camaradas.

O mundo não reconhece os homens que, como Ferro Rodrigues, procuram conciliar. Prefere sempre alternativas claras e fiáveis. E o líder do PS, nesta causa tão mobilizadora, falhou o momento da intervenção. Não teve a clarividência de Freitas do Amaral, aspirante a Chirac português, que não desiste de uma candidatura presidencial (veja-se como, tal qual no 15 de Fevereiro, teve o cuidado de arranjar um compromisso para, apesar de tudo, não marchar...); nem de Mário Soares, velho catalisador de emoções, que ainda não enterrou as ambições políticas.

O mundo gira a uma velocidade louca.

Há poucos anos, Portugal tinha o Escudo que Paulo Portas não queria perder, porque com ele iria um dos símbolos da soberania. Hoje tem o Euro, a primeira moeda do Mundo a par do dólar, e Mário Soares de costas para os patrões de Frank Carlucci, erro que João Soares não comete, como qualquer presidente da Câmara com ambições mais altas.

Acredita-se em Freitas do Amaral, na campanha do sobretudo verde, a diabolizar os Estados Unidos? E em António Guterres primeiro-ministro a fechar os Açores à cimeira e fazer tudo aquilo que agora diz que faria? E alguém consegue imaginar o PS, se a mulher de Jaime Gama não estivesse doente, a correr para os braços do voto fácil? Neste último caso seria Ferro Rodrigues quem se sentaria na última fila do Parlamento, mesmo que José Sócrates se mantivesse prudentemente na fila abaixo, quanto mais não fosse para não se misturar com Manuel Alegre.

A política, nacional e mundial, é isto: muito interesse, disfarçado de princípios, a mobilizar a boa vontade do cidadão. Caso contrário, por exemplo, os “nossos irmãos” timorenses não estariam agora, pela voz do Nobel Ramos Horta, a apoiar os tenebrosos guerreiros americanos – a não ser que, ao menos eles, ainda saibam de quanto é capaz uma tirania...

Os frentismos são assim: federam sempre interesses vários.

Fiquemo-nos no essencial: a guerra, ao contrário do que parece nesta era da informação-espectáculo, com comentadores armados de apontadores e quadros tácticos recheados de figurinhas, à imagem do futebol, dói a todos.

Há ali, por detrás dos mísseis luminosos, que encantam as crianças e os generais com a sua apregoada infalibilidade, muito sofrimento inocente e sangue a correr, de parte a parte para além da desigualdade das forças.

Num mundo assim é legítimo que falhem as certezas. Estas devem ficar para os inocentes e para os hipócritas. Felizmente, ao menos, o presidente Jorge Sampaio não pertence nem a uns nem a outros.
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