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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Outubro de 2002 às 00:02
Os últimos anos da vida política portuguesa têm sido marcados pela cobardia dos políticos de Lisboa face ao populismo dos autarcas do Norte, nomeadamente os do Porto. Este é um fenómeno transversal a todos os partidos e a todos os Governos. Por isso mesmo, há que saudar a intervenção de Pedro Santana Lopes no que se refere ao TGV, completamente contrária às teses oficiais do PSD e da maioria no Poder nesse mesmo dia reafirmadas por Durão Barroso no conclave do Partido Popular Europeu.

Não faria nenhum sentido, de facto, que os lisboetas viessem a ter de se deslocar ao Entroncamento para apanharem o combóio rápido para Madrid. Como não faria sentido voarem para o mundo a partir da Ota. Se, na verdade, o centralismo do Terreiro do Paço agravou desde sempre o subdesenvolvimento de vastas regiões do País, nomeadamente do interior, estas novas “teses nacionais” que tudo condicionam são um outro acabado passaporte para a má gestão.

O caminho mais rápido entre Lisboa, Madrid e o resto da Europa passa mesmo por Badajoz, e se o Governo não quer andar a reboque de José Maria Aznar tem de estudar os “dossiers” com tempo. Convém, igualmente, dizer que o caminho ferroviário mais rápido a partir do Porto será por Vigo, com benefícios para o Minho. Se os portuenses, para voarem para o estrangeiro, tivessem de viajar primeiro até à Ota, obviamente estariam a perder competitividade nos negócios e tempo no lazer. Logo, a Ota é um aeroporto para Lisboa que não serve sequer a região e custa dinheiro a todo o País. E o TGV comum, a ligar-se no Entroncamento, não seria apenas um novo fenómeno, seria também um grave erro. Como não há que ter esperanças na maioria dos nossos políticos, acreditemos que a Europa não queira pagar estes devaneios.

Quando Ferro Rodrigues clama contra “esses palermas” da maioria não está, apenas ou de todo, a ceder à emoção e a colaborar na descida de nível do discurso político. Está, pelo contrário, a ser coerente com o passado e a sintonizar-se com o Povo que já desce às ruas protestando contra a austeridade imposta pelo orçamento de 2003. O Partido Socialista de Ferro Rodrigues é mesmo um partido de Esquerda. Quer cortar todos os laços com aquilo que considera a indefinição ideológica dos tempos de António Guterres – e o próximo congresso, o primeiro sem o “engenheiro” pio e praticante, não é o único lugar para enviar ao país os sinais de mudança. O futuro se encarregará de esclarecer como as duas vias, que desde sempre coexistiram no PS, se alinharão de novo para disputar as Presidenciais. Mas, sobretudo, há-de dizer se vale a pena abordar as Legislativas de punho erguido, ao som da Internacional. Por agora, é legítimo ter dúvidas sobre essa estratégia.

Numa guerra nunca há lugar à confiança excessiva. Veja-se Paulo Portas. Na precisa altura em que os generais do “inimigo”, António Costa e Ferro Rodrigues, sofriam um bombardeamento muito oportuno, rebentou-lhe uma revolta no quartel. O “dossier” Alvarenga fragiliza ainda mais o líder do PP, porque se acredita que o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas nunca se teria rebelado desta maneira, em época de crise, contra um ministro na plena posse detoda a autoridade do cargo. Dificilmente Jorge Sampaio pode opôr-se à distituição do General, que lhe será apresentada amanhã por Durão Barroso, mas Paulo Portas, assim, está a tornar-se num fardo demasiado pesado.

Durante esta semana, Gilberto Madaíl terá de propor à Direcção que lhe escolheram uma decisão quanto ao seleccionador: Manuel José, a proposta inicial, tão do agrado de Valentim Loureiro ou Fernando Santos, o afilhado de Pinto da Costa? Ou ainda haverá espaço para uma terceira via? O presidente da FPF já se livrou do virtual Agostinho Oliveira, tão do agrado dos jogadores e da crítica choramingas, mas ainda tem de passar no teste da independência. Se tivesse conseguido negociar a disponibilidade de Carlos Queiroz, a única solução lógica e consensual, mesmo que em “part-time” (e aí poderia haver lugar para Nelo Vingada, Rui Caçador e Agostinho Oliveira...), nada disto tinha acontecido!
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