Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
4
2 de Junho de 2006 às 17:00
Cavaco iniciou a sua peregrinação pelo País subordinada à temática da inclusão.
Mas o problema real chama-se exclusão. Cavaco fala do remédio, evitando, cuidadosamente, o nome da doença. São técnicas de abordagem de questões difíceis. Que apaziguam más consciências, mas induzem, sempre, falsas pistas. Não duvidamos, nem por sombras, da boa vontade de Cavaco, transformado numa espécie de Madre Teresa caseira, mas sem a sua sensibilidade, nem o seu espírito de sacrifício. E também sem o risco de ser infectado pela doença que se propõe debelar. Enquanto Cavaco não trabalhar as suas contradições e os seus prudentes desígnios não forem devidamente enquadrados por outro tipo de motivações, pela lei e pelos poderes central e autárquico, não tem nada para dar. Vai de mãos vazias. Prega, com pouca convicção, uma caridadezinha asséptica. Vagamente cristã.
Reclama a ajuda de terceiros e exibe, tão-só, as suas debilidades como Chefe de Estado. As agendas são extenuantes, não há tempo para discutir nada seriamente. A peregrinação resume-se a um estéril exercício de faz-de-conta. Cavaco vai onde o levam. Vê quem lhe deixam ver. Ouve palavras de circunstância e abala, porque uns quilómetros mais acima a cena já está montada e outros estão à espera dele.
Cavaco passa, leva a inclusão para outros sítios, mas a exclusão continua por onde passou. O milagre ficou por fazer. Como irá, então, acabar esta sua aposta, que mais do que ser o motor de algo decisivo se confunde com uma doentia resignação?
Cavaco começa a viver enleado entre as suas dúvidas, hesitações e contradições e a necessidade de se assumir como Chefe de Estado. Acusa o peso do sistema que ajudou a construir, das suas convicções económicas e da vontade de corrigir os efeitos negativos que elas comportam. E é tentado pela via simplista de falar ao coração das pessoas. Vive prisioneiro de forças que lhe escapam e entende mal e o remetem para uma situação de pedinte.
Dizendo que é preciso “envolver a sociedade civil”, o PR reconhece a falência do Estado e suas instituições nesta área específica. Quando o PR apela à solidariedade de todos nós, como solução para os problemas da exclusão, fecha um capítulo importante da nossa história sociopolítica moderna. Certifica a sua impotência e do Estado que, afinal, chefia e a sua morte como agente da coesão e do bem-estar social. De que, com o coração a transbordar de boas intenções, se torna o último dos carrascos.
Percorrer o país real daria a Cavaco uma verdadeira dimensão de homem de Estado se ele estivesse motivado por imperativos ético-políticos claros e não se exibisse, apenas, como arauto de razões humanitárias de raiz pouco mais que caritativas. E, depois, fosse capaz de se libertar dos seus constrangimentos. Doutro modo, Cavaco continuará a gerir a sua nobre aposta, sem nada mudar, apelando a uma solidariedade que nos deixa a todos, cada vez mais, na dependência dos mais próximos e mais generosos, como nos tempos das piores crises da história da Humanidade.
Cavaco pressente a desgraça e tenta exorcizá-la.
Mas coopera tanto na solução da questão da exclusão como as meninas que à porta dos supermercados, estendendo o saquinho de plástico, apelam ao nosso bom coração e ajudam a mitigar a fome no Mundo.
Ver comentários