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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Junho de 2005 às 17:00
1. Como está o País desde que o Benfica foi campeão e perdeu a Taça de Portugal?
A quebra de jejum do Benfica tem correspondência na quebra de jejum dos portugueses? Eu próprio, que deixo os afectos de lado, nestas colunas e nos meus comentários televisivos, cheguei a dizer, em nome do princípio da alternância e considerando a imensa massa adepta do histórico clube da Luz, que o País precisava do Benfica campeão.
Os adeptos do FC Porto vinham tendo alegrias atrás de alegrias, em razão da sua competência desportiva consagrada internacionalmente; os simpatizantes do Sporting também já tinham visto quebrar-se, nos últimos tempos, por duas vezes, um enguiço que se prolongou durante mais de um decénio e meio; o próprio Boavista conseguiu intrometer-se nesta monocórdica macrocefalia da bola indígena.
Do Benfica já só se falava de memórias. Principalmente do tempo em que Eusébio fuzilava as balizas adversárias. Era preciso acordar o monstro adormecido. Rebentar as costuras de uma alegria reprimida. Se me perguntarem se gostaria de ter visto, neste campeonato, uma equipa mais altiva, mais bonita, mais espectacular, mais eloquente, é evidente que sim. Acho que o futebol é pragmatismo, deve ser tecnicamente direccionado para a vitória, mas quando deixar de ser um espectáculo atractivo, com uma componente estética, morre.
Técnica e tacticamente, confesso que gostava do FC Porto de Mourinho. Como gostei do Chelsea de Mourinho. Como gostei, igualmente, do Liverpool de Rafa Benitéz. Como acho interessantes as ideias de Co Adriaanse agora reveladas na ‘montagem’ do FC Porto 2005-2006, cuja aplicação vamos ver se será exequível. Gosto de equipas dinâmicas, bem preparadas fisicamente, capazes de imprimir alto ritmo durante todos os jogos. Irrita-me ver jogadores parados em campo, ou que só atacam ou que só defendem.
Voltando à questão inicial: como está o País desde que o Benfica foi campeão e perdeu a Taça?
2. Antes de responder, convém dizer, em nome do rigor, que o Benfica não perdeu a Taça – vendeu-a! Não, não há nenhum escândalo subjacente a esta afirmação. O que o Benfica fez foi adoptar uma estratégia comercial de risco que pressupunha poder sair derrotado do Jamor. Explicando: os responsáveis ‘encarnados’, depois da conquista do título de campeão nacional após onze anos de interregno, optaram por mostrar os seus ‘troféus’ nas ruas de Portugal.
Sabe-se que o Benfica está numa campanha de angariação de sócios e respectivos fundos. Sabe-se que o presidente assume esse objectivo como algo de fundamental e decisivo para a concretização de um projecto que, em linhas gerais, todos conhecem: mais sócios, mais dinheiro, porque é preciso pagar aos bancos os financiamentos entretanto efectuados. O dinheiro já não passa pela Luz; vai directamente para os bancos.
As receitas futuras já têm o mesmo destino e não estou a ver alguém dizer aos bancos que não há hipóteses de assumir os compromissos já celebrados. Mas se, quase por absurdo, aparecer alguém a dizer, nesta ou noutras paragens, que não paga aos bancos? Estes terão coragem para iniciar um processo de execução de penhoras? Penhorar o quê? O estádio? Os bancos, que já controlam os clubes e respectivas SAD há muito tempo, não estão livres de um dia aparecer algum ‘desalinhado’ a dizer: executem o que quiserem! Depois quero ver o resultado...
Ia a dizer, todavia, que o Benfica vendeu a Taça de Portugal. Vendeu-a porque precisou dos jogadores para serem os rostos de uma gigantesca operação de ‘marketing’, sustentada por horas a fio de directos televisivos. A presença dos jogadores em diversos locais, de dia e noite, antes do estágio final de Óbidos, colocou uma equipa presa por arames acima dos seus limites físicos. O Benfica ganhou em propaganda, despertou o gigante, fez eclodir o ‘tsunami vermelho’, mas perdeu desportivamente. Foi um risco calculado, certamente sob a convicção de que era capaz de juntar o útil ao agradável: fazer a festa e o ‘marketing’ e ganhar a Taça através da mera exibição das faixas de campeão! O que aconteceu no Jamor nem sequer foi surpresa para os próprios benfiquistas. A equipa entrou a arrastar-se no Estádio Nacional, a pingar champanhe e depois de ter correspondido a quase todas as solicitações sociais. Resta saber se o negócio foi bom – se a operação de ‘marketing’ compensou a perda da Taça.
3. Vamos, pois, finalmente, à questão inicial. Os fazedores de ilusões achavam que bastaria o Benfica ser campeão para o País mudar. Era como esfregar a lâmpada de Aladino e pedir três desejos.
Sócrates não tem nem vai ter nenhum génio a quem pedir desejos nem o Benfica tem culpa desta coincidência, que resulta de enorme leviandade política protagonizada ao longo dos anos.
A verdade é que há uma coincidência temporal e inexequível (a menos que vivamos na pátria da loucura) entre os sacrifícios pedidos, politicamente, aos portugueses e as exigências feitas, clubisticamente, aos benfiquistas. Não haver pão e haver cartão é algo irracional.
Os portugueses querem acreditar que este País é governável. O não da França e da Holanda ao Tratado Constitucional deixou a Europa baralhada. Aumenta a vulnerabilidade perante os Estados Unidos e cria uma nova (des)ordem no Velho Continente. Países desprotegidos como Portugal já não se sentiam confortáveis com o aumento da competitividade na ‘Europa dos 25’; os portugueses vivem, neste momento, sob a sensação da dupla orfandade. Desprotegidos por dentro e por fora.
Apertar o cinto, portanto. Mas quem tem autoridade moral para mandar apertar o cinto quando é o próprio ministro das Finanças quem beneficia de uma situação ética e socialmente incompreensível? Será que os políticos, como os líderes dos clubes de futebol, não percebem que dar o exemplo é determinante para a afirmação da autoridade? No século XVII, Pierre Corneille já escrevia: ‘Toca-nos mais o exemplo do que a ameaça’. Quatrocentos anos depois temos quem pense, sobretudo no futebol, que vale mais a ameaça do que o exemplo.
O Benfica, no imaginário dos adeptos, é uma ‘nação’ (como o FC Porto e o Sporting), mas a ‘nação’ não resolve – nem é essa a sua função – o problema dos reformados, do aumento do IVA e do desemprego e da qualidade de vida das classes média e baixa portuguesas.
Permitam-me os leitores um desabafo de carácter pessoal: estou muito desiludido com o meu País. Eça acreditava num ideal superior de justiça e de consciência social, que podia contribuir para arrancar Portugal do atraso endémico em que se encontrava e para a reforma das mentalidades. O ‘Portugal das invejas’, o ‘Portugal das intrigas’, o ‘Portugal da mesquinhez’ está a triunfar e, entre porcos, que grunham gloriosamente, não sei onde irá parar.
Nota – Total insensibilidade e falta de critério no desmembramento da equipa do Sporting. Não foi só a forma como Rui Jorge conheceu a dispensa. É a falta de rumo. O autismo.
Nota 1 – No dia do reencontro de Figo com a sua ‘velha amada’, entretanto rejeitada, a ‘boda’ valeu pela classe de Ronaldo. Na rota (natural) do Mundial, a Selecção jogou bem e teve Luz.
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