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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Março de 2007 às 09:00
Afinal os fantasmas existem. Apesar da barafunda instalada acerca da, cada vez mais estranha, escolha da Ota para o NAL, das contrariedades autárquicas do BE, do novo estatuto do gestor público, dos 50 anos de Tratado de Roma, da continuação da insípida telenovela Zezinha/Castro/Portas, a grande notícia da semana foi o fantasma de Salazar ganhar o concurso ‘Grandes Portugueses’. Logo seguido, num quase empate técnico, de um outro poderoso fantasma, Cunhal. Repetindo o desfecho das suas vidas, mais uma vez o velho ditador, agora sem a ajuda da PIDE, levou a melhor. A História repete-se no Além. O Carmo e a Trindade continuaram de pé, mas houve quem não gostasse da brincadeira.
O concurso foi inocente. Mas as reacções que suscitou nem por isso. O clube anti-Salazar quer riscá-lo da História. Estupidamente. Porque se os fantasmas dos nossos mortos incomodam alguém a culpa não é deles. É dos que por cá andam ainda, que com as mais duvidosas intenções os massacram e os obrigam a penosas horas extras ordinárias. Sem convicção reclamam que seja riscado da História. Mas para bem de todos nós, que sabemos o valor da memória, ainda não foi inventado tira nódoas que elimine definitivamente e sem rastro factos e personagens históricos.
Triste é que esta revolta contra a presença histórica do arcaico ditador seja uma fraude. Porque muitos dos que fingem exorcizar Salazar reclamam, afinal, a sua presença. Que é para eles uma espécie de patético certificado de garantia. São os órfãos da ditadura e fora dela não são capazes de encontrar referências que lhes levemos a sério. Querem-no para o exorcizarem e, assim, alimentarem um culto com que constantemente se promovem e sem o qual estiolariam. Como pode o nosso ditadorzinho caseiro e rural, sempre fiel às suas botas e aos seus valores, ganhar um concurso popular em confronto quase só com ‘heróis’ e ‘santos’? Simples. Do mesmo modo como alguns personagens de banda desenhada, sem ponta por onde se lhes pegue, ganham eleições para lugares de responsabilidade e nos conseguem impor a sua presença durante anos a fio. Do mesmo modo que Santana chegou a 1.º ministro, Vale e Azevedo chegou a presidente do Benfica, Pinto da Costa chegou a presidente vitalício do FCP e a excelsa Carolina a sua 1.ª dama. E muitas outras milagrosa realizações sociopolíticas acontecem, semana sim, semana não.
Somos um país pobre em recursos naturais e humanos, mas riquíssimo em fantasmas. Verdadeiros e falsos. Que são os que mais nos deviam assustar. Os que para aí se passeiam em carne e osso, no Funchal, em Óbidos, nas câmaras e suas empresas e até a correr maratonas. E não precisam de ocasiões especiais para se manifestarem.
Eles estão por aí, 24 horas por dia, e até nos avisam da sua presença.
Onde haja a mínima possibilidade de assombrar o indígena, eles aí estão.
Se queremos intervir no processo histórico é com os fantasmas vivos que temos de nos preocupar. Enquanto é tempo. O respeito pelas vítimas da História impõe igual respeito pelos factos históricos. Bebam chá. Deixem o fantasma de Salazar em paz, lá onde ele tem direito a repousar. Nos manuais de História. Ao lado das suas vítimas.
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