Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
2
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

O Papa e a Cristina

“Fica a ideia de que existe apenas o que a televisão mostra. O mundo acabou para lá da caixa mágica.”

Francisco Moita Flores 3 de Abril de 2005 às 17:00
1 Escrevo num tempo em que João Paulo II ainda vive. Não se sabe por quanto tempo mas há um dado novo que é incontornável quando olharmos as horas que estamos a testemunhar – é a primeira vez que assistimos à morte de um Papa em directo. O Sumo Pontífice mais mediático da história do papado romano, que soube inteligentemente usar a visibilidade decorrente desta revolução nos sistemas de comunicação, agoniza sob as luzes dos holofotes que atiram para todos os lados do mundo a sua última mensagem, esta a propósito da dor. Desde quinta-feira que a programação das televisões e rádios passa forçosamente pela praça de S. Pedro e bem se pode dizer que João Paulo II que fez da vida uma afirmação ecuménica da Igreja, até na morte soube utilizá-la como um magistério do sofrimento. E a Igreja, velha sábia com dois mil anos, cedo se apercebeu da importância deste directíssimo para lhe dar uma direcção ideológica.
A morte é o mais íntimo dos actos da vida nos homens. Ninguém pode viver a morte de outro, apenas a sua própria morte. Talvez seja essa intimidade que, no plano simbólico, induz ao recolhimento, à discrição, a ritos de separação tocados pelo silêncio. A agonia do Papa é o silêncio interrompido por milhares de comentadores e por imagens espectaculares da basílica que tem o nome do primeiro apóstolo.
É caso para dizer que jamais outro Papa vai morrer no recolhimento que foi tão caro ao Vaticano. A necessidade do espectáculo entrou na casa do sagrado. A tecnologia mediática venceu o terço rezado no recolhimento das penumbras.
2 É um sinal dos tempos. Mas também do jogo de ilusões sobre o que é notícia e o que é espectáculo. Noutra dimensão e já perto de nós, aqui na nossa casa, antes das eleições, eram as televisões varridas por outras centenas de comentadores e noticiários que anunciavam a crise económica que levaria o país ao afundamento completo. O défice das contas públicas, o equilíbrio orçamental. Horas a fio de ameaças, de gente dos jornais, das notícias à opinião, barafustando aflições, cabelo desalinhado, olho alvo, e o país no fundo do túnel sem possibilidade de ver luz tão cedo. Santana Lopes foi a pique responsabilizado pelo maior agravamento da crise do último século. Muda o governo. Faz-se uma gestão inteligente da informação espectáculo e, por milagre, a crise económica desapareceu dos debates, dos noticiários, da vida pública. Ou seja, não se fala dela, logo não existe. Agora discute-se o aborto, as novidades da ‘Quinta das Celebridades’, o banco de dados genéticos, a agonia de João Paulo II. A crise económica acabou. Felizmente.
3 Fica a ideia de que existe apenas o que a televisão mostra. O mundo acabou para lá da caixa mágica. Portanto, não vale a pena pensar mais as coisas de que não se vê imagem porque é um real invisível, sem direito a agenda nem atenção. Mas eu hoje conheci uma menina, a Cristina, de cinco anos, que vive na Fundação Andaluz em Santarém, abandonada pelos pais, que aos cinco anos conhece a terceira casa de recolhimento. Que nos abraça com sofreguidão de afecto e sorri com o brilho das estrelas nos olhos. A seu lado estão outras crianças assim, abandonadas, que a sorte atirou para a invisibilidade, e onde só o carinho de freiras dedicadas lhes dá o pedaço de afecto que a vida lhes roubou. O olhar límpido de Cristina ainda não tem o bafio de tristeza que já se vê no olhar das suas companheiras mais velhas. Porque ainda não entende que a vida lhe jurou um fatalismo. E hoje, que o Papa agoniza, que o espectáculo da dor é notícia, que multidões rezam pelos seus mortos e pelos seu vivos, curvo-me perante a figura de João Paulo II, que agora parte, e temo, pelo futuro de Cristina, que agora chega e nunca será notícia.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)