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Fernando Calado Rodrigues

O Papa e o preservativo

A Igreja tem tido dificuldade em gerir o dossier da utilização dos anticonceptivos. Não é fácil falar para o mundo inteiro e conseguir responder à infinidade de circunstâncias, diversas, que cada pessoa vive.

Fernando Calado Rodrigues 30 de Novembro de 2012 às 01:00

Nos finais dos anos 60, poucos anos após a conclusão do Concílio, esperava-se que a Encíclica "Humanae Vitae" de Paulo VI, dedicada às questões da regulação da natalidade, enveredasse pela aceitação dos métodos anticonceptivos artificiais. Apesar da abertura pós-conciliar que então se vivia, o Papa não deu esse passo, talvez com o receio de passar uma mensagem de banalização da sexualidade. Refugiou-se na perspectiva mais tradicional da sua orientação para a procriação, em detrimento de uma visão mais positiva do valor e da dignidade da sexualidade humana.

Com o aparecimento da SIDA e a dogmatização do uso do preservativo como o melhor meio para travar a sua disseminação, foi mais difícil sustentar a condenação dos anticonceptivos, de forma absoluta e em todas as circunstâncias. Há um ano, Bento XVI surpreendeu o mundo ao afirmar que o seu uso, ainda que em casos excepcionais, pode ser admitido. Esta posição do Papa foi interpretada como uma mudança de atitude em relação à luta contra a SIDA, que amanhã celebra o seu dia mundial. A Igreja tem-se empenhado, desde o seu aparecimento, na prevenção e no tratamento dessa enfermidade, embora sem o devido reconhecimento da opinião pública. Em relação à prevenção, foi desde cedo criticada por manter reservas em relação ao preservativo e por preferir um discurso, considerado moralista, de apelo à responsabilidade e à abstinência sexual.

Em relação ao tratamento da doença a Igreja é, em todo o mundo, depois da Organização Mundial de Saúde (OMS), a instituição com mais hospitais a cuidar de doentes seropositivos. As unidades hospitalares católicas representam mais de um quarto (26,7%) da oferta mundial, imediatamente a seguir aos 44% da OMS.

Para evitar ser mal compreendida e mal valorizada no seu trabalho, a Igreja devia fazer a mesma evolução que fez em relação à política. Deixar de se preocupar em canonizar ou condenar opções concretas e propor valores orientadores para os comportamentos de cada um.

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