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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Outubro de 2008 às 00:00

As transacções destes intermediários têm um volume anual de negócios de mais de 200 milhões de euros, grande parte das quais escapam ao controlo do Fisco e das autoridades monetárias, com a conivência dos próprios clubes, incluindo os que estão cotados em Bolsa. A CMVM, alheada e limitada a uma espécie de indiferente ‘notariado’, tem sido, aliás, uma desilusão. Este negócio das transferências de jogadores é fortemente induzido pelas comissões (nunca menos de 10%), o que explica a frenética actividade de compra e venda de futebolistas, uma verdadeira indústria de import-export que já pouco tem a ver com as necessidades dos clubes. É o negócio pelo negócio. Até há treinadores de topo (I Liga) a agenciarem os ‘seus’ jogadores. Há já um ano, com as ‘preocupações’ do Governo pelos circuitos destes fluxos financeiros, que fogem a impostos e regras monetárias, o secretário de Estado, Laurentino Dias, propôs à FPF, à Liga, ao Sindicato dos Jogadores (SJPF) e à Associação Nacional dos Agentes de Futebol (ANAF) a criação de “uma entidade que assegure o controlo e transparência das transferências de jogadores efectuadas de e para os clubes ou SAD que participam nas competições nacionais de futebol.” Coisa que, diga-se, já existe nos países civilizados da Europa. Meteu protocolo assinado pelas partes, Laurentino apareceu nos jornais a falar numa tal de ‘Casa das Transferências’ – e depois, até hoje, nada.

Não é preciso o Sherlock Holmes para descobrir porquê. A quem não interessa que o Estado venha a controlar o real fluxo financeiro das compras e vendas de jogadores? Aos comissionistas (como lhes chamava o dr. Dias da Cunha) e a uma chusma de intermediários, desde, às vezes, os familiares dos jogadores a agentes-piratas e, claro, aos dirigentes que negoceiam com eles e participam nos ‘despojos’. Um futebol ‘pobrezinho’ que importou na última época mais de 250 futebolistas estrangeiros mas mantém 265 nacionais no desemprego e tem outros 354 a jogar lá fora não tem salvação. O histórico Belenenses é o retrato desta anarquia e, provavelmente, o próximo ‘Boavista’: só ele importou nada menos de 18 estrangeiros para a actual equipa.

Quando Joaquim Evangelista, presidente do SJPF, diz que “os agentes (intermediários) dominam técnicos e dirigentes e determinam, de facto, as aquisições” sabe do que está a falar. Mas isto ‘queima’ – e quem é que lhe mete as mãos?

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