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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Maio de 2003 às 00:00
Num novo, surpreendente, pouco divulgado e quase não comentado desdobramento do caso cubano, o Cardeal Angelo Sodano, Secretário de Estado da Santa Sé, declarou a 30 de Abril que apesar dos recentes fuzilamentos e prisões em Cuba "o diálogo nunca se interromperá" com o regime castrista, porque continuava a nutrir uma "grande esperança", que seria a do próprio Pontífice. (...)
Em sentido inverso, no dia anterior, a agência vaticana Fides, da Congregação para a Evangelização dos Povos, havia reconhecido que em relação ao regime cubano "esperávamos e equivocámo-nos", porque a realidade está a mostrar que "o punho de ferro de Fidel Castro, cheio de ímpeto do populismo retórico, cuja força encheu as fossas de cadáveres, continua abatendo-se contra gente inerme".
Sábado, 26 de Abril – quando chegava ao auge a interrogação mundial sobre o silêncio público da Santa Sé (...) – a Sala de Imprensa do Vaticano decidiu divulgar uma carta reservada do Cardeal Sodano a Fidel Castro, em nome de S. S. João Paulo II, onde mencionava a "profunda aflição” deste ante os tristes factos repressivos e pedia um "significativo gesto de clemência", que o tirano ignorou brutalmente.
Por isso, não se compreende a ênfase da autoridade máxima da diplomacia vaticana em ratificar a sua esperança no sanguinário tirano e a sua determinação num diálogo a qualquer custo com o nefasto regime cubano, inspirado na ideologia comunista, que a Igreja qualificou como "intrinsecamente perversa". Tudo isto parece de uma gravidade só comparável, talvez, à afirmação de seu predecessor, o Cardeal Agostino Casaroli, que em visita a Cuba em 1974 chegou a afirmar que "os católicos que vivem na ilha são felizes dentro do sistema socialista e são respeitados em suas crenças". A minha consciência de católico, de cubano e de ex-preso político durante 22 anos, impedem-me de ficar em silêncio a este respeito. (...)
Um "diálogo" pressupõe, entre outros elementos fundamentais, sinceridade das partes. Não duvidamos que a possua o Emº Cardeal Secretário de Estado. Porém, como pensar que a possua o sanguinário ditador? (...)
No plano diplomático e político, esperar e confiar naqueles que não o merecem – e que continuam dando brutais mostras de não merecê-lo – pode ser uma temeridade que pode conduzir às maiores catástrofes, como o ilustram tantos episódios da História do século XX. No plano do apostolado, a mansitude e paciência como virtudes do cristão referem-se à atitude a ser tomada ante as afrontas pessoais, porém isto é muito diferente da conduta pública que é preciso adoptar frente aos que sistematicamente, de maneira também pública, esmagam a verdade e o bem. No plano evangélico, o próprio Jesus Cristo mostrou com seu exemplo que muitas vezes o dever dos Pastores, para alertar e proteger o rebanho, não é a linguagem do diálogo mas a da increpação. (...)
Depois de 40 anos de perseguições à Igreja, até quase ao extermínio, com a sua cruel estratégia de criar apóstatas e não mártires; de milhares de fuzilados e assassinados; de um contexto psicológico, político e religioso de negação radical da doutrina católica e da lei natural; enfim, da destruição completa da nação cubana, por parte de uma ideologia "intrinsecamente perversa" como é o comunismo, quais serão as razões pelas quais o Cardeal Secretário de Estado continua a confiar na possibilidade de um diálogo com Castro, chegando inclusive a falar, nas referidas declarações, de "pontes de ouro"? (...)
Diante de tantas incógnitas, de tantas perplexidades e de tantas dilacerações espirituais que todos estes episódios provocam iniludivelmente – vendo o pastor sair em auxílio do lobo vermelho encurralado –, a fé dos católicos deve ficar intacta e até fortalecida. Pois é sabido que em matérias diplomáticas e políticas nem sequer os Papas estão assistidos pela infalibilidade. Os fiéis católicos cubanos, reafirmando a incondicional obediência à Igreja e ao Papado nos termos estabelecidos pelo direito canónico, e manifestando toda a veneração devida à Cátedra de Pedro, temos o direito – e até o dever – de resistir em aceitar determinadas orientações diplomáticas do Vaticano, na medida em que estas discordem da linha tradicionalmente adotada pela Igreja em relação ao comunismo. Atitude que deve inspirar-se no mesmo espírito com que São Paulo "resistiu em face" a São Pedro.
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