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Correio da Manhã

Opinião
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Armando Esteves Pereira

O pior aluno do grupo do euro

Os portugueses têm padrões de consumo do Norte da Europa, com níveis de produção próximos de Marrocos.

Armando Esteves Pereira(armandoestevespereira@cmjornal.pt) 26 de Novembro de 2006 às 00:00
A adesão ao euro foi o grande objectivo português da década de 90 e foi alcançado. Mas, em vez da prosperidade prometida, o facto de Portugal ter sido aceite no clube dos ricos não tornou a economia portuguesa mais próspera. Antes pelo contrário, como revela um relatório divulgado pela Comissão Europeia, a economia portuguesa foi a que mais sofreu com a adesão à moeda única. Nestes sete anos, não conseguimos crescer tanto como a média da Irlanda em apenas 365 dias.
Exemplos positivos de integração na moeda única por essa Europa não faltam, nem é preciso ir muito longe para comprovar. Basta ir a Espanha, que cresce a um ritmo três vezes superior ao português. Como reconheceu recentemente numa conferência em Lisboa o economista António Borges, “afinal não estávamos preparados”. A entrada no euro acabou com todos os truques e com o que restava do proteccionismo que ajudava muitas empresas portuguesas a sobreviver. No tempo do escudo, as autoridades monetárias desvalorizavam a moeda, as importações ficavam mais caras e as exportações nacionais mais baratas nos mercados externos.
Este acerto resultava numa inflação elevada que prejudicava o rendimento das famílias. Os salários raramente acompanhavam a subida de preços, mas desvios de 3 a 4% entre actualizações salariais e a inflação não causavam alarido semelhante ao que actualmente, em período de inflação baixa, causam perdas de algumas décimas. As famílias pagavam mais impostos, mas o truque da desvalorização do escudo permitia a ilusão de se pensar que se ganhava mais dinheiro de ano para ano, perdendo realmente poder de compra. Como as importações eram caras, consumia-se muito ‘made in Portugal’.
Após a entrada no euro, a redoma que protegia a economia portuguesa desapareceu. E as empresas nacionais tiveram de jogar em campo aberto. Graças ao efeito Autoeuropa, os números das exportações continuaram a evoluir de uma forma positiva. Mas, na economia real, centenas de fábricas foram obrigadas a fechar as portas. Sem a protecção cambial ficaram com custos elevados, sem possibilidade de competir. E as empresas nacionais não foram capazes de aproveitar a revolução no consumo verificada com a explosão do crédito barato. Os consumidores passaram a comprar mais, mas produtos importados. E, como disse Silva Lopes, os portugueses passaram a ter um padrão de consumo do Norte da Europa, com níveis de produção próximos de Marrocos.
ESTADO AGRAVA PROBLEMA
No meio de um choque tão grande, o Estado, que devia ajudar a competitividade, é um factor de risco por causa do descalabro das contas públicas. Segundo o comissário europeu que tutela os Assuntos Económicos, Joaquim Almunia, um dos problemas estruturais que atrasou Portugal foi o crescimento elevado da despesa pública.
A Europa pede ainda um maior esforço para o equilíbrio das contas públicas. A questão não é saber se há vida para além do défice, porque enquanto o Estado não resolver este problema a economia pagará uma factura pesada e não se aproximará da Europa.
Dúvida. Se um dia os contribuintes tiverem de pagar uma indemnização milionária ao proprietário do loteamento aprovado pela Câmara de Lisboa, onde poderá passar o TGV, algum responsável prestará contas na Justiça?
Desprezo inaceitável. O bem público parece ser um conceito em extinção, mas pelo menos deveria haver mais respeito pelo dinheiro dos contribuintes.
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