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Correio da Manhã

Opinião
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3 de Maio de 2006 às 17:00
A história existe em duas ou três versões. Eu gosto desta. Durante uma conferência na livraria Foyle’s, em Londres, o orador excedeu-se na duração e no desinteresse da palestra, a ponto de quase adormecer um espectador nas primeiras filas. Atrapalhadíssimo, William Foyle, o anfitrião, bateu com um martelo de leiloeiro na cabeça do espectador, que respondeu: “Dê-me com mais força. Eu ainda consigo ouvi-lo.”
Este episódio traz-me sempre duas lembranças: a dificuldade de arranjar uma alma caridosa com martelo e o eng. Sócrates. Nos últimos meses, é impossível assistir a um noticiário sem deparar com o homem, disfarçado de estadista moderno, a enumerar centenas, milhares, milhões de “medidas”, destinadas a garantir o futuro da Segurança Social, a desburocratização, os prodígios científicos, a redução da despesa pública, o incremento das obras públicas, a devolução da “confiança”, o controlo do défice, a eficácia da Administração, a abolição da “interioridade”, a alegria dos velhinhos, a felicidade dos jovens e, em suma, a nossa genérica salvação.
Dizem-me: há ali coisas boas. “Boas”, no sentido de razoáveis, necessárias, susceptíveis de transtornar a Extrema-esquerda. Acredito, juro que acredito. Mas seria preciso uma debulhadora mecânica para separá-las daquela desumana resma de irrelevâncias e puros desvarios. Depois, também seria essencial um espírito muito aberto para admitir, sem um vestígio de dúvida, que o anúncio de maravilhas implica a existência das maravilhas. Por fim, seria útil admitir cegamente que a presuntiva bondade de inúmeras propostas não vai colidir com a toleima evidente de tantas outras.
De qualquer modo, a OCDE, o FMI e o Banco de Portugal já se pronunciaram sobre as consequências reais das prédicas socráticas. O que me desespera de facto é o respectivo tom. O eng. Sócrates fala como um actor sofrível que decorou a custo a sinopse de um péssimo texto, e que o repete com a emotividade do Hal 9000, o computador da ‘Odisseia no Espaço’. Comigo, o resultado é fatal: sonolência, enxaqueca, entorpecimento dos músculos, angústia prolongada.
Devo ser caso raro. Tirando os protestos “espontâneos” do 1.º de Maio, a vasta maioria dos portugueses parece apreciar o estilo. A julgar pelos estudos de opinião, talvez haja mesmo uma relação directa entre a quantidade de intervenções do eng. Sócrates e a crescente popularidade do PS. Pelo menos, há o elevado risco de os assessores do primeiro-ministro se convencerem disso e desatarem a promover mais projectos regeneradores, mais cerimónias grandiosas, mais discursos. A Constituição permite. E também ninguém impede os portugueses de receberem cada discurso do eng. Sócrates com renovado fervor místico e simpatia nas sondagens. Se quiserem, são até livres de sair à rua, com fogo-de-artifício e bandeiras nacionais, a agradecer o abençoado líder que a providência lhes deu. Mas antes, por favor, passem cá por casa. E batam-me com mais força.
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