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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Outubro de 2006 às 00:00
Há exactamente 200 anos, em Jena, e verificando o triunfo napoleónico sobre o Exército prussiano, o filósofo Hegel escrevia sobre o evidente “fim da história”. Esmagando as tropas de Frederico Guilherme, do duque de Brunswick, do príncipe Holenhoe e do general Von Ruchel, as águias da nova revolução francesa impunham uma nova ordem na Europa. Parecia eterna.
Lembrei-me disso quando ouvia as palavras do chefe do Estado-Maior do Exército inglês, Richard Dannatt, explicando que é tempo de começar a pensar em maneiras de sair do Iraque.
As discussões dão-se também em Washington, e tornar-se-ão mais prementes depois das eleições de Novembro, se as duas câmaras mudarem de mãos. A política ocidental no Iraque não pode ser motivada pela ilusão do fim da história, nem pela teimosia, nem pelo dogma. E os iraquianos são, presumivelmente, suficientemente crescidos para tratar de si. Se não forem, devem requerer, a qualquer tribunal internacional, um tutor permanente.
MEMÓRIA E PALAVRA (1)
Desde há muito que se formou o consenso, dentro e fora da Turquia, sobre o sofrimento dos arménios, pelo menos desde o termo das guerras com a Rússia, no fim do século XIX, até 1923.
Um tribunal marcial de Ankara declarou culpados, em 5 de Julho de 1919, vários membros supremos do Partido Ittihad, Terakki e do CUP (instituições fundamentais da facção antiliberal do movimento Jovem Turquia), pelos excessos praticados contra a nação arménia. Os acusados incluíam o ex-primeiro-ministro Mahmet Talaat Paxá, e os ministros da Guerra, da Marinha e da Cultura, entre outros. Os actos referenciados tinham sido praticados em 1915, e as condenações à morte foram proferidas.
Tratou-se de ‘genocídio’, ordenado pelo Estado turco, ou de actos de deportação, perseguição e assassínio, perpetrados por facções e bandos imperiais, nacionais e locais? Tratou-se de um plano concertado e pensado, ou de um conjunto de actos com causas várias?
E como foram tratados os arménios, na experiência da URSS?
MEMÓRIA (2)
Em suma, é importante discutir, redescobrir e reconhecer o passado. Nenhuma norma deve impedir essa busca, essa dúvida, esse processo. Sendo assim, a lei francesa que criminaliza quem ‘negar’ o genocídio arménio, não é menos imbecil do que as leis turcas que interditam a menção do mesmo.
Se começarmos a olhar para o passado, quase todos os povos – a começar pela França – possuem cadáveres nos armários.
A pilhagem napoleónica na Europa e no Mundo, o massacre dos contra-revolucionários da Vendeia, a repressão da Comuna de Paris (pelo Exército imperial derrotado em Sedan, providencialmente libertado pelos alemães para ‘repor a ordem’ na capital) são apenas alguns desses momentos.
Por outro lado, os políticos franceses que querem ajustar contas com a Turquia actual, e impedi-la de aderir à UE, deviam ser mais sinceros nos argumentos. Não vale a pena culpar os netos pelos pecados dos avós.
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