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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

O PROBLEMA CARLOS CRUZ

(...) é mais fácil estar pró ou contra. Não obriga a pensar. Apenas a aceitar a verdade do acusador ou da defesa.

Francisco Moita Flores 8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
Ao longo da semana passada a comunicação social, sem morte no estádio nem cataclismo à mão para apaixonar as almas descontentes com a crise, decidiu dramatizar e dar estatuto de questão nacional à decisão de Rui Teixeira sobre o destino de Carlos Cruz. Finalmente, depois de uma semana de conversa da treta, durante o programa Vidas Reais, um belo programa para anunciar coisas da treta, o país vigilante e noctívago, coscuvilheiro e sedento de sangue podia brindar: o homem continua preso!
O problema Carlos Cruz, por agora e durante algumas semanas, está resolvido. O que não significa que o processo esteja destinado à condenação certa deste ou de outro arguidos.
A única certeza que tenho é que este é um processo condenado ao fracasso. Não afirmo isto pelo que dele se sabe, mas sobretudo pelo que se sabe, e assiste, num processo idêntico a ocorrer nos Açores. É a diferença entre a vergonha e a dignidade, entre o que de mais perverso pode existir nos meandros da inquisição dos novos tempos e a competência judiciária ágil do outro.
Conheço isto há anos demais para não ser necessário perder tempo para compreender as hesitações de Rui Teixera, a pressa afogueada de uma investigação nervosa que está seguramente cheia de erros grosseiros, ditada pela intencionalidade das convicções e pouco permeável ao vigor da prova criminal. Basta saber que há testemunhas ouvidas dezassete vezes para se adivinhar que a tão celebrada preocupação com a debilidade psicológica das testemunhas não passa de uma cortina de fumo. Debilidade para a defesa as ouvir, carregar no pedal quando se trata de procurar construir uma história feita de intenções.
Basta saber que no tal álbum das fotografias está a figura de um cardeal, sem que haja notícias de bispos ou cónegos envolvidos neste escândalo para se perceber que se torna suspeito quem critica esta coisa sem pés nem cabeça persistindo em ignorar os verdadeiros suspeitos. Não tenho dúvidas de que todos aqueles que de uma forma ou de outra criticaram este processo estão nesse tal álbum. É uma prática recorrente. Conhecida desde os autos de fé da Idade Média.
A este modelo medonho de investigar e decidir tem-se oposto a rapidez, o passo rijo, a determinação no processo dos Açores. Como já aqui escrevi, o problema pode ser das leis mas é sobretudo dos homens que a aplicam.
Mas também é verdade que sabemos pouco sobre tudo. Apenas uma ou outra notícia nos jornais. Mas iremos saber. Este segredo de Justiça não vai durar muito mais tempo e depois veremos o que aí vem. Porque desenganem-se aqueles que julgam que isto tem a ver com poderosos e não poderosos. Daqueles que bebem cegamente como verdades absolutas o que é dito pela acusação, dos outros que fizeram acto de fé em todas as inocências e dos muito poucos que têm o atrevimento de não acreditar na perfeição das leis e dos homens e questionam criticamente a vida, os homens, as instituições, procurando-lhe o fundo moral.
Reconheço que é mais fácil estar pró ou contra. Não obriga a pensar. Apenas a aceitar a verdade do acusador ou da defesa. É o reflexo do país preguiçoso que herdámos e que iremos entregar aos nossos filhos. Mas também é verdade que o sistema judiciário, pesem as graves falhas, deficiências e distorções é, ainda, um palco de lucidez e não um antro alargado de manhosos. E um dia iremos ver. Como S. Tomé. E saber quem merece estar na cadeia. Se os que agora são bons ou aqueles que agora são os maus.
Resta esperar. Como se esta semana inventada pela comoção artificial não tivesse existido. Porque não seria a libertação de Carlos Cruz que resolveria em definitivo aquilo que se suspeita existir como um tumor dentro de um processo cujo propósito é saber a verdade. Só o julgamento mostrará quem são os bons e os maus nesta história. Até lá, aguardemos com fé que este país é qualquer coisa mais do que um sítio mal frequentado.
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