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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

O problema da seca

Aliás, é sabido que este Governo não tem culpa de nada. A culpa é toda do Santana Lopes. Está certo. Resigno-me e vou à próxima procissão organizada à revelia da Igreja implorando chuva aos céus.

Francisco Moita Flores 5 de Setembro de 2005 às 17:00
Depois de termos vivido a saga dos incêndios com as mesmas promessas e as mesmas desculpas de outros anos. Depois de ter escutado pela enésima vez os bombeiros que não estiveram coordenados, a protecção civil que não funcionou, a ajuda que não chegou a tempo, intermináveis debates com ministros, generais, deputados e outros pimpões empanturrados de soluções que nunca passam do terreno das intenções, ou chegam atrasadas, ou pura e simplesmente não existem. Depois de tornarmos a ver populações desesperadas, florestas e aldeias em chamas, de se repetir o estendal de mortos, ouvindo as mesmas explicações de há vinte anos, as desculpas de há trinta anos, o conformismo de sempre, o pouco que resta não dá para acrescentar uma linha nova ao que de novo aconteceu. E, graças a Deus e com a ajuda da nossa resignação secular, tudo acabou em bem.
Não houve demissões espectaculares, o Governo manteve-se coeso e alegre, os bombeiros começam a regressar aos quartéis, esquecidos os protestos, em silêncio, e os pobres dos campos continuam a saga de sofrimento e destruição a que já estão habituados, e resignados, e ao menos não arderam as igrejas para que possam pedir a Deus a ajuda que os poderes da terra lhes negam.
Foi sempre assim e, no fundo, o poder, ao longo do último século, mudou tão pouco que da história da indiferença não há notícias sobre a sua origem. Apenas se sabe que existe.
E agora vamos à segunda parte desta novela carregada de fatalismos e miséria.
Já se sabe que existem fortes razões meteorológicas para acreditar que a seca vai continuar. As previsões são pessimistas em relação à chegada da chuva e o problema é mais sério devido ao facto de no ano passado não ter chovido. Já se sabe que o gado continuará a morrer à míngua de água e de comida, já se sabe que as sementeiras podem estar em perigo, já se sabe que os níveis de água potável vão reduzir-se ainda mais. Bom, neste momento, pode o leitor perguntar: mas que raio de discurso é esse se não sabe se chove ou não? Pois é, de facto não sabemos. Estamos entregues às previsões meteorológicas e à Providência Divina. E se não chove, como desconfiam os cientistas do tempo, resta-nos a Providência Divina, tal como na Idade Média e por esses anos todos fora até hoje e sempre cumprindo um destino fatalista que aparentemente se funda no sebastianismo, mas que objectivamente tem as suas raízes no desleixo, na incúria, na mediocridade que faz da política um problema para resolver hoje ou amanhã, ignorando sempre o planeamento estratégico.
A verdade é que, depois da tragédia dos incêndios, tudo indica que vem aí a tragédia da seca e, animados com eleições, com o início do campeonato, nem uma palavra, nem um plano, nem uma previsão de combate ao flagelo. Argumentará o leitor mais céptico que o Governo não tem culpa porque nem tem ministro da Meteorologia. Tem razão. Aliás, é sabido que este Governo não tem culpa de nada. A culpa é toda do Santana Lopes. Está certo. Resigno-me e vou à próxima procissão organizada à revelia da Igreja implorando chuva aos céus.
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