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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Outubro de 2011 às 01:00

Cada vez que oiço Cavaco Silva lembro-me do Pulo do Lobo e fico a pensar se ele, alguma vez, terá saído de lá. O sítio fica perdido numa das margens do Guadiana e tornou-se famoso quando, em 1994, já o cavaquismo gastava os seus últimos cartuchos, Cavaco disse ter lá estado incomunicável, durante um fim-de--semana. O então Primeiro-ministro escusava-se, assim, a responder às críticas e aos desafios do então Presidente da República, Mário Soares, feitas no ‘Portugal, que futuro?’.

Dezassete anos depois, a resposta a Soares é dada por um país pobre, falido, sem saber do futuro. Mas não foi de repente que se ficou a um passo do abismo. Foram muitos os responsáveis e Cavaco Silva foi um deles. Foi o Primeiro-ministro com mais tempo de cargo, de 85 a 95. A década dos primeiros muitos milhões da Europa, da baixa histórica do preço do petróleo e do dólar forte, bom para as exportações. O ‘Homem do leme’ canalizou esses milhões para o betão, o cimento, o alcatrão e lançou a base de um modelo económico seguido pelos governos de Guterres a Sócrates. É dele a primeira PPP, com a Lusoponte, e que faria escola. Foram anos de euforia, de regabofe com os milhões para a formação e modernização das empresas. Deu subsídios para o abandono da Agricultura e das Pescas.

Hoje, Cavaco, o Presidente, encontrou no mar a solução para o País. E agora, com o Governo PSD fala de finanças e economia em joint venture, quando o devia ter feito na altura em que o País era enganado e caminhava para a bancarrota com Sócrates. Cavaco não avisou, não interveio. Preferiu garantir a sua reeleição porque sempre teve uma agenda pessoal. Esteve sempre ausente quando o País viveu crises sérias ligadas à Justiça, à Liberdade de Imprensa, a direitos essenciais. Escuda-se (na 3ª pessoa) dizendo que um PR não deve pronunciar-se sobre este ou aquele assunto. É exactamente o contrário. Mas falta-lhe essa dimensão. Homem comum, um tecnocrata, a sua formação assenta em valores como a honra, a dignidade, o trabalho. Os valores da Civilização não estão no topo da hierarquia de Cavaco e deviam estar. Por isso, se é para falar de "austeridade digna" o melhor é voltar para o Pulo do Lobo. Para mim, nunca saiu de lá!

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