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Correio da Manhã

Opinião
28 de Junho de 2002 às 00:03
Conhecemos bem o que é o poder local. Estamos atentos à luta pelo poder e à forma como se exerce esse poder. E temos presente que a nossa Constituição consagra o princípio da separação dos poderes - o legislativo, o executivo e o judicial. Mas mantemos alguma displicente ignorância sobre o que será o "quarto poder".

Os dicionários, pelo menos alguns, são omissos a esse respeito. Referem o abuso do poder, o poder de encaixe, o poder temporal e, claro, o supremo poder. Mas nada sobre o quarto poder. Que é isso, afinal?


Se recuarmos na nossa História até às cortes monárquicas, que começaram a ser convocadas lá pelo século XIII, lembrar-nos-emos de que os três estados representados tinham a mera função de aconselhar o soberano, não lhe limitando o poder decisório.


Na realidade, só depois dos Estados Gerais Extraordinários de 1822, em que foi aprovada a primeira Constituição, se começou a notar o reconhecimento dos "direitos e deveres do homem e do cidadão", inspirados nos ideais da Revolução Francesa.

Foi também essa influência que ditou a alusão a um "quarto poder", feita por Edmund Burke, parlamentar inglês do século XVIII, autor de numerosas obras, inclusivamente sobre a Revolução Francesa. Ele tinha bem presente que Luís XVI convocara para Versalhes, em Maio de 1789, os três Estados Gerais - 270 nobres, 291 clérigos e 578 cidadãos comuns.
Foram estes últimos que transformaram os Estados Gerais em Assembleia Nacional e depois em Constituinte.


Na Câmara dos Comuns, segundo reza a História, Edmund Burke comentou um dia, apontando para a galeria da Imprensa: "Ali está sentado o quarto estado, mais importante que todos os outros". A expressão ficou e, transformada em "quarto poder", tem-se mantido para designar a Imprensa e, mais tarde, os outros meios de comunicação. Mas será correcto chamar-lhe poder? Esta palavra significa "autoridade", que não lhe assenta, embora já lhe possa assentar "influência".

Mas a comunicação social é demasiado vulnerável para constituir um poder. Curioso, mesmo paradoxal, é que a classe política reconheça a importância desse "quarto poder", e que os políticos a ele recorram para projectar a sua imagem, em particular na televisão. Aqui já não existe separação de poderes. O que conta é ser a TV a única janela aberta para o mundo a que se podem debruçar.
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