Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
7
18 de Novembro de 2012 às 01:00

A miséria brutal foi compensada pela caridade e solidariedade, por recolhas públicas, oferta de comida e também pelos fundos das associações sindicais. As greves eram proibidas, mas toleradas. Estudei esta greve. A imprensa do Porto fez relatos brilhantes e detalhados da situação nas fábricas, das acções violentas e pacíficas de polícias e operários, das suas reuniões e das negociações. Comparadas com esta, as greves actuais são passeios.

A comparação com a greve geral de 14.11 permite anotar realidades actuais que as TV não referem ou até fazem por omitir, para acentuar a espectacularidade do evento. Primeiro, a greve desta semana não foi geral. Atinge em particular uma actividade nevrálgica, os transportes públicos, provocando a disrupção da vida quotidiana. Segundo, além dos transportes, atinge apenas serviços públicos, como escolas e outros. Esta clivagem Estado-privados – que é essencial no Portugal contemporâneo, como todo os dias se vê e debate – não é assinalada na informação. O Portugal privado não parou. Terceiro, os números de adesão são no mínimo estranhos quando se sabe por um estudo recente do ICS que 80% dos portugueses nunca fizeram greve. Quarto, a greve é essencialmente política, não tendo qualquer dimensão reivindicativa específica, retirando um dia de salário aos grevistas e prejudicando milhões de cidadãos, pelo que os únicos beneficiários são os políticos que a organizam, isto é, no caso, o PCP-CGTP. Quinto, os sindicatos portugueses, com raríssimas excepções, não pagam dias de greve aos associados, contrariando uma das missões históricas dos sindicatos, como na greve de 1903 no Porto. Nunca os media se interrogam sobre isto, nem sobre o destino que os sindicatos fazem ao dinheiro das quotas, que serve, entre outras coisas, para alimentar a casta sindical e comprar imobiliário. Sexto, os relatos não procuram identificar politicamente os autores de distúrbios, apesar de as bandeiras anarquistas flutuarem em frente do parlamento.

As TV centram-se no lado espectacular: transportes (públicos), escolas (públicas) e serviços (públicos) parados, manifs e incidentes. Esses eventos têm de ser mostrados, mas também faz falta informação sobre a verdadeira dimensão da greve e aspectos contextuais como os que referi. No meio do ruído, esse silêncio desinforma e motiva a insatisfação dos espectadores. 

A VER VAMOS

Não poderão os canais acabar com o engraçadismo opinativo?

O engraçadismo no jornalismo é uma das piores invenções da TV portuguesa: em vez de procurarem a máxima objectividade, alguns jornalistas noticiam a partir da sua opinião pessoal, que embrulham com graçolas verbais e visuais. O exemplo mais insuportável do engraçadismo são as reportagens de Anselmo Crespo, da SIC. Envolve o relato em palavreado populista, graçolas, retórica de café, opinião que não se espera nas notícias. No dia da greve geral, cobrindo o encontro oficial entre Cavaco Silva e o presidente da Colômbia, Crespo chamou "fura-greves" ao presidente da República. Esta irresponsabilidade é tanto mais incrível quanto ele próprio trabalhou nesse dia e fez aquela mesma notícia: "fura-greves", também ele?

JÁ AGORA

"Informação", o circo da bola?

Escândalo! O governo não incluiu jogos da 1ª Liga na lista de programas de interesse público a transmitir pela TV gratuita. Arons de Carvalho, comentador da ERC, escreveu até que os jogos são "informação", quando são entretenimento popular da indústria capitalista do futebol (que as TV não quiseram comprar). Informação são tão-só as notícias a respeito do futebol.

MOS

MOS
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)