Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
7
12 de Março de 2011 às 00:30

O Presidente apenas pecou pela demora em proferir as afirmações que tornaram histórica a sua posse. Já o deveria ter feito, há dois anos, quando se começou a perceber que a vertigem pelo abismo estava a condenar o País ao desastre. Prefiro a análise fria e racional à demagogia calculista que oculta os factos, em nome da despudorada fixação pelo poder em que se transformou a governação socialista. Portugal vive num pântano político, e para que as palavras de Cavaco Silva, afinal, não constituam um volumoso, mas vazio, amontoado de observações espera-se que alguma coisa aconteça.

O caminho para José Sócrates estreitou-se dramaticamente desde quarta--feira, não sendo, no entanto, ainda líquido o que pretende o PSD, a maior força da Oposição. Se o cronómetro conta para o actual primeiro-ministro, rola também para Passos Coelho, cujas indefinições constituem a razão principal para a incerteza quanto aos resultados que os social-democratas possam vir a obter em cenário de eleições. Ao líder do PSD não lhe resta outra opção a não ser tentar precipitar o fim do consulado socialista, reconhecida que está a impossibilidade de entendimento governativo com o PS, pelo menos enquanto este tiver a actual liderança. Liberto das limitações com que o argumentário visando a sua reeleição o espartilhava, Cavaco Silva atreveu-se, por fim, a tomar uma atitude. De Passos Coelho espera-se, agora, que diga o que quer, sem sofismas nem floreados.

É importante o País conhecer o que vai na sua cabeça, à margem das pressões a que é submetido tanto pela máquina do seu partido, ávida do regresso ao poder, como pelos baronatos social-democratas, que precisam de fazer-se ouvir para que alguém se aperceba de que existem. A patética declaração de Santana Lopes, por exemplo, a admitir a hipótese de formar um novo partido apenas assusta quem é inseguro. Só o próprio Santana ainda não percebeu que se tornou personagem irrelevante e que o que o espera, em tal cenário, não será muito diferente do destino que acolheu o ex-líder centrista Manuel Monteiro. A questão, agora, é saber qual a próxima pedra a mover-se.

O País não perdoará as hesitações e os estados de alma do líder laranja, a desvalorizar-se e a assemelhar-se a um aprendiz a enfrentar um mestre da prestidigitação à medida que os dias passam. Se ninguém der o passo vital, por inércia ou receio, Cavaco Silva terá de se chegar à frente. Só assim fará sentido o sobressalto que provocou com as suas palavras. Caso contrário, apenas será, ele próprio, um inconsequente agente do vazio.

VIVAÇO EM TERRA DE CEGOS...

Na ânsia de evitar a vinda do FMI – Fundo Monetário Internacional –, pois sabe que isso ditaria o seu fim, Sócrates aplica, por impulso e sem pudor, as medidas que aquela instituição defenderia. A austeridade, agora reforçada, permite--lhe ganhar tempo. Precisamente o que falta aos entalados portugueses.

BOA VIZINHANÇA

A TVI arrisca-se a ser o abono de família dos seus concorrentes. Os erros da estação favorecem, em alguns dias, as audiências dos outros. Como na política, a liderança fragiliza-se por culpa própria. A têmpera dos donos medir-se-á quando o impacto chegar aos cofres…

VIAJAR EM BOA COMPANHIA

A gestão do tempo livre é uma arte que se aprimora. Arranjar espaço para a leitura é um exercício que se pratica com prazer. ‘O Seminarista’, de Rubem Fonseca, um mestre da narrativa que tem o condão de tornar curtas as grandes viagens, já está aberto à descoberta de um novo mundo na escrita.

NOTAS: Escala de 0 a 20

CAVACO SILVA: 16

Pela sua voz, a verdade sobre o País irrompeu no Parlamento. O discurso de posse provocou incómodos mas não foi cúmplice. Espera-se actuação consequente.

ANDRÉ VILLAS-BOAS: 14

No primeiro ano como treinador de um clube grande, consegue ter o FC Porto à beira da vitória na Liga portuguesa e com um bela carreira na Liga Europa. O futuro sorri-lhe.

MIGUEL RELVAS: 9

Não é fácil explicar a estratégia do PSD, mesmo por um porta-voz desempoeirado. Mais difícil ainda é justificar a abertura do partido ao regresso de militantes expulsos.

FRANCISCO LOUÇÃ: 7

A censura do BE foi chumbada, completamente inútil. Numa semana em que os juros da dívida dispararam, partilha com Teixeira dos Santos a pior nota.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)