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Correio da Manhã

Opinião
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3 de Novembro de 2005 às 17:00
A ascensão no actual panorama político está transformada num jogo de prudência e calculismo. O importante é chegar lá acima, a qualquer preço. O importante é o desempenho da função. Na nossa cultura política instalada, em plano secundário estão as convicções e clareza das propostas. Afinal, deviam ser estas, as convicções e as propostas, que deviam servir de instrumento para alicerçar as legítimas ambições de um político ao serviço da causa pública.
O conselho que ouvimos ser dado mais vezes a candidatos que arrancam à frente em sondagens e estudos de opinião é o de não se exporem, não falarem, se possível irem de férias até à data marcada para o eleitorado se exprimir.
Assim, sem debate ou polémica, acaba por prevalecer o lugar-comum, que lhes permitiu ascenderem a altos voos. Circunstancialmente, os rótulos de “o mais sério”, “mais simpático”, “boa pessoa” ou bom “técnico” são suficientes.
É pena que seja assim. Um dos factores mais negativos da democracia representativa é a constatação do desinteresse dos cidadãos pela política, pelo debate e pelo acompanhamento da actividade normal de uma campanha eleitoral, mormente quando ela se centra em candidaturas a altos cargos da vida nacional.
Em 1983, toda a gente sabia que Mário Soares, então líder do PS e candidato a primeiro-ministro, assumia como compromisso eleitoral integrar Portugal na, então, CEE.
Em 1985, todo o País sabia da intenção de Cavaco Silva, então líder do PSD, de acabar com o governo de Bloco Central (coligação com o PS) e de iniciar o processo de privatização de alguns sectores estratégicos da nossa economia.
Em 1995, os cidadãos sabiam que eleger Guterres significaria sufragar medidas objectivas como a da criação do rendimento mínimo garantido.
Em Fevereiro deste ano, votar em Santana Lopes era votar no choque de gestão e escolher Sócrates era optar pelo choque tecnológico. Perante a vacuidade destas propostas, prevaleceram os indicadores que ligavam Sócrates a uma vontade de mudança e a um acréscimo de autoridade de Estado no exercício do cargo de primeiro-ministro. Hoje, a desilusão reinante é ‘filha’ dessa aridez.
Agora, o arranque da campanha eleitoral para as presidenciais não está mais prometedor. Depois de declarações genéricas, a discussão está centrada num assunto “relevantíssimo”. Esclarecer quem é que, entre os candidatos, é mais ou menos político profissional! Ridículo e descredibilizador.
Era bom que os candidatos debatessem o sistema político e eleitoral, incluindo o actual carácter semi-presidencial do regime; clarificassem a sua opinião sobre a globalização, sobre o actual bloqueio do projecto europeu, sobre a forma de Portugal relançar a sua afirmação no mundo lusófono, sobre o referendo ao aborto, sobre a regionalização. Ou seja: concretizassem o que pensam sobre a forma de avançar com as reformas da Administração Pública, da Justiça, do Estado Social.
Sabemos que o próximo Presidente da República não vai governar, mas era pedagógico e mobilizador que, por uma vez, alguém com responsabilidades expusesse as suas ideias sobre estes temas.
Vamos aguardar com esperança. A habitual coragem política de Cavaco Silva, a maior consistência das suas propostas e a forma como se está a disponibilizar com os media ainda alimentam uma derradeira expectativa. Era bom que desta vez não fosse eleito um mero ‘outdoor’ e um bom ‘slogan’!
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