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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Setembro de 2005 às 17:00
No funeral das suas ilusões, Alegre foi eloquente. Cavaco é o projecto contabilístico. Manga de alpaca. Cinzentão. O tesoureiro unhas de fome que boicotará todas as iniciativas que se não encaixem nos seus rígidos esquemas académicos.
Soares é “o mero deleite do jogo político”. De economia e finanças só sabe de ouvir dizer. Para isso tem, no sítio certo, todos os economistas que quiser. Que é para o que eles servem.
No dia em que a contabilidade eliminar a acção e o pensamento políticos, teremos encontrado o sucessor do sistema democrático. A contabilidade faz-se com números. Os maiores dos tiranos. A política faz-se com ideias, criatividade, imaginação e esperança. Política, ou se faz com gozo, ou não se faz.
É esta a nossa realidade. É aí que encaixa Soares. Com todos os seus defeitos e qualidades.
Soares regressa. Mais maduro, mais vivido. Com uma experiência renovada. Confiante. Sem nenhuma revolução para gerir. Sem companheiros ou adversários a chamar-lhe traidor (se excluir-mos a grotesca exploração do episódio Alegre). Sem ter de conspirar com a CIA. Sem contradições ideológicas ao formular o salto para Belém. Em cheio. O espectáculo pode não ser o mais edificante. Mas é a hipótese de reconciliação final de Soares com a história. Que lhe deu o tratamento que merecia. E muito maltratado o deixou.
Cunhal está morto. Zenha também. A ‘tropa’ está nos quartéis. O PC e o CDS estão com vida artificial. O BE é uma beberragem agridoce, que garante boa disposição momentânea e parece tornar a perspectiva do futuro mais cor-de-rosa. Mas como todas as drogas usadas em situações terminais, tem componentes altamente tóxicos e graves efeitos secundários. E não passa de um ‘remake’ do folclore partidário dos tempos áureos de Soares. É, afinal, o seu elixir da longa vida. O único efeito que tem sobre ele é uma fastidiosa sensação de ‘dejá vu’.
Soares está em casa! A sua majestade pode ser decrépita, mas é a única que nos resta.
É um soberano polémico. Acusado de não ter pensamento político nem ser capaz de mostrar um mínimo de coerência nas suas intervenções públicas. Puro engano. Historicamente, o seu pensamento político é um enfeite de que muda com o mesmo à vontade com que as madames mudam de fatiota. Sempre teve um para cada ocasião. Coerência também nunca lhe faltou. Negá-lo é equívoco de analistas menos atentos.
Mário é, talvez, a mais coerente das personagens da nossa história contemporânea.
Pauta sempre os seus comportamentos pelo seu interesse pessoal. Que por vezes coincide com o interesse comum.
Depois vêm os amigos (Soares é fixe…), o partido, a república e a ‘populaça’. Que exulta com a sua determinação e coragem. E vai ao rubro quando, acidentalmente, Mário encarna o papel de salvador da pátria. Que desempenha na perfeição.
Como é, agora, o caso. Quem tiver em consideração este aspecto verá como não existe uma única contradição no comportamento de Soares.
Mas, que fazer? Foi para aqui que nos atiraram os (ir)responsáveis do PS e do PDS ( não foi, MRS? ) que só têm de meter a viola no saco.
Se não aproveitarmos o fenómeno Soares, em todo o seu potencial, até ao dia das presidenciais, estaremos a perder a nossa última oportunidade de fazer da política uma festa. A afogar-nos na apagada e vil tristeza do nosso fado.
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