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Correio da Manhã

Opinião
1 de Maio de 2005 às 17:00
Há um ano, Portugal parecia a caminho de ter um quadro político complementar, e europeu: um PS de esquerda social, um PP de direita popular, um PSD moderado, vagamente social-democrata (mesmo que precisasse de um parceiro de Direita para governar) e um partido da moda em crescimento, o Bloco de Esquerda.
Rapidamente tudo mudou.
Com o congresso do CDS-PP fechou-se um ciclo de poucos meses em que todos os partidos do arco governamental mostraram como são volúveis nas convicções.
Hoje só a esquerda que cresce à conta do discurso antipoder se mantém fiel às mesmas pessoas e às mesmas ideias.
O PS foi o primeiro. Em eleições directas, enterrou a linha frentista de Ferro Rodrigues, representada por Manuel Alegre, e escolheu o regresso à moderação e sentido de Estado: José Sócrates.
No PSD, Santana Lopes, que tinha sido legitimado em congresso com uma percentagem à moda de Saddam Hussein, apoiou Luís Filipe Menezes mas viu o partido emendar o passo e escolher mais um líder (Marques Mendes) na área de onde tinha saído Durão Barroso e de onde pode vir a vitória que sirva de bálsamo a quatro anos certos fora da arbitragem dos grandes negócios inerentes ao exercício da governação: a de Cavaco Silva nas presidenciais.
No passado fim-de-semana coube ao PP voltar a ser CDS. A derrota de Telmo Correia foi, também, uma pausa no partido popular e populista de Paulo Portas. Vem aí (com Ribeiro e Castro) o centrismo na linha de Freitas do Amaral (“o outro”) – seja o que for que isso possa representar num partido à direita do PSD…
Todas estas movimentações trazem-nos uma confirmação: mais do que fóruns de convicções e de estratégias para o futuro a longo prazo, os partidos são um lugar de reunião de interesses e ambições que não convivem bem com períodos demasiado longos de afastamento do Poder. Por isso impera a táctica e a experimentação a reboque das pessoas que ocasionalmente, pela conjuntura ou pelo talento político pessoal, melhor pareçam colocadas para ganhar umas eleições.
Ao contrário, os vencidos são ignorados e esquecidos.
Quem quer, hoje, no PSD, ser visto ao lado de Santana Lopes? E alguém, no PS, tem saudades de Ferro? Ainda assim, no CDS-PP, mesmo que o retrato de Freitas seja rapidamente reposto no seu lugar, Paulo Portas tem uma situação diferente: porque foi ele a sair e é, inegavelmente, um político de craveira intelectual acima da média. Apesar disso, não conseguiu impor ao partido o representante da sua vontade.
Pode também fazer-se outra leitura complementar: sempre que os partidos tendem a romper para uma maior definição das suas opções ideológicas os portugueses assustam-se e retiram-lhes os votos. A sociedade nacional parece satisfazer-se com o centro e a moderação. Esta pequena comunidade de menos de dez milhões de pessoas, com quase 40% vivendo à custa do Estado entre funcionalismo do Estado e camarário, entre pensões essenciais e subsídios possíveis, treme só de pensar em alterações de fundo. Por isso se prometem reformas que ou não se fazem ou avançam tímidas e se teme a diferença clara.
A maior parte dos dirigentes do PS podiam estar no PSD e vice-versa. Freitas do Amaral é o cúmulo deste quadro pintado com tintas suaves. Mas também é verdade que, para romper e convencer, um líder, em especial iluminado pelo exercício do Poder, tem de ter duas qualidades que escasseiam: qualidade e credibilidade. Por uma razão ou outra tem faltado isso à Direita.
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