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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Junho de 2013 às 01:00

Os impulsos iniciais revelaram uma pulsão revolucionária, desconhecida desde o gonçalvismo, que ajustaria contas com o regime filho de Abril, destruiria o monstro Estado, rasgaria a Constituição que ainda fala de direitos económicos e sociais e que tem um preâmbulo de antanho que fala de "caminho para o socialismo" e faria brotar do pântano o novo homem lusitano competitivo e sem vícios financeiros.

A realidade irrequieta e o inconcebível Tribunal Constitucional foram dando sucessivos banhos gelados ao PREC de direita e, mesmo entre os convertidos da doutrina oficial erigida em pensamento único, a fé foi progressivamente fraquejando. Velhos bispos das antigas convergências conservadoras como Ferreira Leite, Bagão Félix, Capucho ou Silva Peneda, já para não falar no apóstata Pacheco Pereira, foram dando crescentes sinais de heresia, revelando a perda da fé na salvação pelo desfiladeiro da austeridade redentora. A obsessão atingiu o delírio no Orçamento do Estado para 2013 que, depois do ato falhado pirómano da TSU, insistiu num surreal aumento de impostos e na reincidência ofensiva do Estado de Direito da violação do contrato com funcionários e pensionistas. Tudo isto com uma doce recessão de 1% e a retoma a partir de meados do ano. A receita colapsou 1600 milhões, o desemprego está no limiar do milhão, a UGT fartou-se de ser gozada, Cavaco e os governantes estão remetidos à semiclandestinidade mas no meio disto, perante um segundo ensaio orçamental sem credibilidade, Passos veio lamentar o pessimismo doentio.

Incapaz de motivar os parceiros sociais para a mudança ou de dar esperança às famílias, o Governo tornou-se, pela permanente alteração de objetivos sem credibilidade e pelo frenesim legislativo desestabilizador da confiança, o principal fator de instabilidade na sociedade portuguesa.

A revolução social revanchista está paralisada pelo isolamento do Governo refém de Gaspar. Cada dia de atoleiro sairá caro, é urgente um novo consenso que supere este revisionismo doentio.

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