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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Fevereiro de 2003 às 00:03
Os últimos 15 dias foram os mais "longos" da história recente do "mundo ocidental" a que pertencemos.
Alicerçado na aliança político militar consubstanciada na NATO; assente na realidade programática e institucional que modela as democracias liberais; almofadado na super-estrutura político e económica enquadrada pela OCDE, o Ocidente parecia condenado a condicionar a evolução do mundo, numa perspectiva de algumas gerações.

É verdade que existia uma "nova" Rússia, que não alienava a sua apetência imperial; é claro que despontava o gigante chinês; é evidente que o bloco constituído pelos estados islâmicos indiciava uma lógica, no passado impensável, de progressiva aproximação política; era indiscutível que não se podia ignorar a importância crescente de médias potências regionais, muitas delas com influência política, potencial económico e, principalmente, poderio militar não negligenciável – Brasil, Índia, Paquistão, Turquia, por exemplo.

Todas estas realidades pareciam, no entanto, condenadas a uma subserviência natural. Estes novos poderes pareciam tender a uma evolução que os fazia correr, mesmo que a contra-gosto, no sentido da democracia representativa e do liberalismo económico, padrões de vida do Ocidente.

Assim, a referida "tutela" não era questionável. Numa "normalização" concretizada de acordo com estas referências, parecia óbvio que a liderança pertenceria a quem jogava melhor e há mais tempo este jogo, onde pontificam a liberdade, a formação e a produtividade.

A crise dos Balcãs ameaçou e o atentado de 11 de Setembro de 2001 colocou a nu uma outra realidade.
O grande salto tecnológico das últimas décadas não havia criado o "monstro" temido por Orwell, mas não tinha trazido a paz e prosperidade eternas que pareciam brotar dos escombros do muro de Berlim.

Num momento, ficou visível o que já existia e os nossos olhos não queriam ver. Um mundo fantástico mas aterrador. Digno do que, genialmente, Tolkien, desenhou com "O Senhor dos Anéis". Não falta quem corporize o horror, sobram os seres disformes e violentos, advinha-se a existência de uns tantos feiticeiros, sentimos que existem muitos entes omissos pairando no seio de ténues nevoeiros, mas ainda acreditamos que alguns, poucos, poderão ser motivados a lutar por um futuro feliz para a Humanidade.

Desigualdades entre alguns países ricos e quase uma centena de outros, onde vivem milhões de homens pobres, sem formação, sem emprego, dizimados por epidemias.

Grandes espaços político-económicos, os tais ricos, paralisados pela surpresa de não continuarem a prosperar e atolados em pântanos de falta de valores e ideais mobilizadores. Fanatismos religiosos medievais, irracionais, odiosos, pais de todos os horrores.

Foi neste contexto que 8 líderes europeus, de pequenas e médias potências , disseram "basta" à vontade hegemónica franco-alemã. A resposta foi o "cisma" belga, alemão e francês no seio da NATO.

Mesmo com cosméticas encobridoras nada vai ser como dantes. A Europa da harmonização "estalinista" democrática deve ser questionada; a NATO deve ser refundada, mas só para quem queira pertencer à mais poderosa aliança militar do planeta, que já não deve ter um estrito carácter defensivo; a ONU terá de se transformar, enterrando o modelo de organização arcaico, "filho" da guerra fria.

Os grandes problemas do mundo vão precisar de novas organizações e novos líderes. Tal como no "Senhor dos Anéis" estão aí todos os ingredientes para o confronto "final". É preciso ir a Sauron – à "terra negra"– destruir o mal. A fome, a doença, o subdesenvolvimento. É preciso apoiar, mas conter a ambição excessiva de Isildur – leia-se Bush, dono conjuntural do anel.

Há lugar para a liderança dos pequenos Frodo – como Portugal. É preciso estar de olho nos grandes feiticeiros traidores, como Sarumom de White – leia-se o lastimável eixo franco-alemão. Assim a "irmandade" vencerá e o homem sobreviverá para sempre.
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