Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
3
31 de Julho de 2005 às 17:00
Têm sido variados os protagonistas deste Verão. Não me vou referir aos tios e às tias que tiram férias para aparecer nas revistas cor-de-rosa, o que para eles é considerado trabalho, uma vez que se pode imaginar o trabalhão que dá carregar com quilos de pó de arroz, litros de verniz e toneladas de artefactos para cobrir a insensatez do estival exibicionismo.
A esses dou-lhes o descanso que merecem.
Há, todavia, um protagonista da nossa mui sui generis sociedade portuguesa que está a dominar o País.
NÃO. Não se trata do ex-ministro Campos e Cunha, que percebeu rapidamente a dicotomia estabelecida entre as promessas programáticas e a realidade terráquea das nossas finanças públicas.
NÃO. Não se trata do ‘nosso primeiro’ que, entre o aeroporto da Ota e o TGV, deve estar num desassossego dilemático para entender o que os economistas querem, para além das soluções mais fáceis e óbvias que seriam fechar o País para obras (não é isso que está a acontecer?) ou entregá-lo a Espanha para a respectiva anexação.
NÃO. Não se trata de Manuel Alegre, o jovem, como dizer?, pré-candidato da esquerda às presidenciais de Janeiro, para salvaguardar a hipótese de Mário Soares cumprir a sua palavra de não se meter na corrida a Belém e também para provar que, não obstante a quantidade de pêlos grisalhos do poeta, a Esquerda ainda consegue livrar-se do estigma de uma certa decrepitude.
NÃO. Não se trata de Mário Soares que, tal e qual como o Vasco Santana, ainda consegue levantar o haltere do chão.
NÃO. Não se trata de Cavaco Silva, o D. Sebastião II de Portugal, que não regressará ao activo provavelmente numa noite de nevoeiro mas num intervalo entre dois fogos, com muita fumaça no ar.
NÃO. Não se trata de Santana Lopes que, num gesto de altruísmo fantástico, não obstante estar com um pé de fora da autarquia lisboeta, disponibilizou mais de um 1 milhão de euros do bolso da câmara para viabilizar a salvação do Ballet Gulbenkian, já considerado como uma das ‘marcas’ mais importantes da cultura portuguesa.
NÃO. Não se trata de José Mourinho que, no intervalo dos anúncios, ainda não teve tempo para nada.
Chegados a este ponto e esgotadas as mais óbvias possibilidades é tempo de revelar, então, a figura que tem dominado o País de lés a lés. Entre sucessivas voltas a Portugal (sem bicicleta), presenças em núcleos e casas, discursos inflamados de indiscutível persuasão, capazes de ombrear com o conhecimento e a verve do professor José Hermano Saraiva, campanhas para vender produtos e um tempo de antena que nem Salazar teve nos tempos da ditadura, emerge sem sombra de dúvidas Luís Filipe Vieira (LFV), o presidente do Benfica, que é sócio do Sporting e do FC Porto. Porquê? Porque é. Porque parece que lhe pagam as quotas e contra isso não há nada a fazer. E porque – ficámos a saber – ‘Pinto da Costa é um homem adorável fora do futebol’.
Já tínhamos percebido a esperteza de LFV que, para vender o kit, quase de porta em porta, conseguiu poupar em publicidade, através da Comunicação Social, alguns milhões de euros. Mas agora, com a sua presença no ‘programa do Herman’, há uma semana, o homem virou super-homem. Arrancou os próprios aplausos do humorista por ter respondido a tudo sem papas na língua. No meio de tantas crises ficou por se saber, sem descurar o que o Benfica representa nas audiências televisivas, quem é que precisava mais de quem: se LFV de Herman José ou Herman José de LFV. Seja como for, releve-se a forma hábil como LFV tem utilizado a força da marca Benfica e esta faz ajoelhar muita gente da comunicação...
No programa, Vieira insistiu em vender o kit como quem vende gelados. Perdoe-se-me a insistência, mas a forma que LFV escolheu para vender o kit a potenciais novos sócios do Benfica é uma marca de indigência cultural. É uma certa maneira do ser português que me recuso a aceitar como sendo a melhor. O título foi a alavanca compreensível. Mas o discurso e o método atiram-nos para um Portugal quase medieval, prisioneiro de uma fanfarronice e de uma gabarolice que já o Eça criticava. Com a agravante de se presumir que a sanha inquisitorial resolve o que a presunção não consegue resolver. Estamos agora mais descansados porque o presidente disse e está dito: ‘Nunca tive a ver nem sequer conheci pessoas ligadas ao meio da droga’. A pergunta que se coloca é esta: por que raio de (des)inspiração, uma questão destas é levantada num programa de humor?! Herman deu-nos um banho de Vieira e Vieira deu um banho a Herman. Tudo muito higiénico, tudo muito limpinho, absolutamente contra campanhas de branqueamento. Até porque LFV sabe que, em última análise, como grande benfiquista que é, se faltarem 100 ou 200 mil novos sócios, o dinheiro correspondente a essa falta de adesão sairá, quase de certeza, do seu bolso. A falta de espaço para acumular tantos kits também se resolve, porque o presidente do Benfica, tão farto em promessas, não se fartará certamente de arranjar mais uma ideia luminosa para evitar pôr os kits remanescentes na arrecadação lá da sua cozinha. Humor com humor se paga e a malta só tem de mostrar espírito aberto para perceber que o futebol, a certa altura, é como um circo: o povo tem de estar bem-disposto, não pensar muito na seca, no desemprego e nas contas a pagar ao fim do mês. Se já nem os políticos se levam a sério porque não havemos de concluir que, afinal, o (super)homem até tem piada?
Esfregue-se as mãos de contentamento porque o nome do estádio já está quase vendido. A compra do Diego foi uma precipitação e há-de achar-se na agulha um buraco para o colocar no plantel principal. A substituição do ‘adquirido’ Tomasson segue dentro de momentos.
Entretanto, há que dizer que a aquisição do Benfica de maior e melhor rendimento chama-se Beto (ex-Beira-Mar).
Outra boa notícia: Luís Guilherme continua no seu posto, Madail também, Valentim também, Cunha Leal também e os ‘marretas’ idem, idem, aspas, aspas.
Não basta a Vieira, depois de um período de verdadeira seca, colocar o Benfica na senda da hegemonia nacional. É preciso torná-lo no maior clube da Europa e do Mundo...
O País rendeu-se à eloquência de LFV, que um dia destes deve aparecer a fazer publicidade a um banco. De fato de treino. Para ser diferente de Mourinho.
Nota - O ‘regresso’ de Cavaco e Soares à ribalta política é um sinal de que, apesar da voragem do tempo, a credibilidade na política ainda é um valor supremo e essencial ao funcionamento da democracia.
Nota 1 – A estória da delimitação dos mandatos faz lembrar aquilo que (não) acontece no futebol. Sempre a adiar. É de uma falta de coragem tremenda não estender essa delimitação ao primeiro-ministro e também aos presidentes dos governos regionais e, no que concerne aos autarcas, colocá-los em sossego até 2013 – supostamente por acordos já feitos considerando as próximas eleições – põe a Assembleia da República ao nível de uma qualquer Assembleia de Clube.
Nota 2 – Por tudo isto, os políticos deveriam dar graças a Deus por terem o povo que têm.
Ver comentários