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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Dezembro de 2003 às 00:00
O sempre ausente candidato a candidato, Cavaco Silva, afinal, parece que vai descer à terra para a sua última grande missão. Barrar o caminho a Santana Lopes. Para descanso de muitas almas inquietas e perplexas com o galopar imparável do buliçoso autarca.
Porque não tenhamos ilusões. Cavaco pode ter ambições, mas não é um homem profundamente tocado pelo apelo da política. Como não é, nunca foi e dificilmente viria a ser um grande estadista. Mau grado as suas qualidades. Essa é apenas, uma ficção cuidadosamente alimentada, por todos os que dependem dela. Os que no PSD nunca souberam o que fazer sem ele. E lhe prodigalizaram uma devoção hipócrita.
Estranha dependência. O PCP matou o pai. O PS, apesar de Soares, ao contrário de Cavaco, ser um homem sempre presente, também saiu da sombra do fundador. Só o PSD ficou amarrado à figura de Cavaco, que não tem nem de longe nem de perto o peso de Cunhal e Soares nos respectivos partidos.
Por isso os cavaquistas de hoje são essencialmente anti-Santanistas, apavorados, e semi paralisados que sem Cavaco se sentem completamente perdidos e começam a não saber o que fazer à vida. Mas o redentor ( que é isso que lhe pedem para ser) parece ter-se dignado apaziguar as suas dores. Veremos.
Cavaco faz falta porque no que diz respeito a candidatos credíveis o PSD está numa penúria pior do que o PS . As danças rituais que, na sua ausência, as grandes figuras sociais -democratas há anos têm vindo a fazer à volta do seu nome tornaram a sua ausência e os seus silêncios insuportáveis e geraram muitos equívocos. O que até agora e talvez tarde de mais , só Pacheco Pereira, em desespero, parece ter entendido.
A evocação permanente do fantasma de Cavaco provoca mais danos do que o próprio professor alguma vez terá causado. É quase só um agente corrosivo da estabilidade do partido, como os factos têm demonstrado. É o que acontece quando os barões preferem viver de equívocos ou se não tem substitutos à altura nos quadros do partido. Mas, ausente, Cavaco, dá a ilusão de ter uma utilidade mais plena do que estando no activo. E, por isso, muita gente se tem enganado. Tem servido para tudo. Para objecto de culto e veneração. Para intimidação. Para exemplo. Para amplificador. Para reserva permanente. É uma espécie de mezinha para todos os males.
Mas Cavaco tem outra dignidade e não merecia ter os pés assentes nesta mediocridade que o sustenta atribuindo-lhe qualidades que não tem, numa espécie de alucinação colectiva.
Até Santana o ambicioso cavaleiro solitário mal tratado e mal- -amado entra nos folguedos e promete render se lhe e estender-lhe o tapete, subserviente e agradecido, se o etéreo professor der o grande passo. Isto sabendo todos que Cavaco não é o ‘artigo’ que se propõem vender, nem nunca seria o presidente com que sonham. O seu currículo público foi feito na política, mas graças à economia e a uma série de circunstâncias irrepetíveis. A sua marca resulta da aliança entre o conhecimento preciso dos mecanismos económicos e financeiros que os mestres lhe ensinaram e uma quase casmurrice que é a negação da mais ténue habilidade política. Como disse de Ferro Rodrigues, um dos vigários da sua igreja, Cavaco é em relação à política politiqueira que impera neste país, um aselha.
Mas Cavaco mostrou sempre ser, também, o contrário desta manipulação interesseira da sua imagem de homem e de político. Transporta consigo uma obstinação, uma seriedade e uma distancia a toda a prova, a recordar mesmo alguns traços Salazentos, na única conotação positiva que esta referência pode ter.
Tem qualidades indispensáveis a um homem de estado, mas faltam-lhe muitas outras. Trai muitas expectativas e engana-se nos ‘timings’ e ninguém é capaz de lho dizer. Se a presidência estava no seu horizonte enganou-se mais uma vez. Manipulou mal o tempo e aparece agora manipulado pelos inimigos de Santana. Colocou-se numa situação de duvidosa dignidade, tão evidente é a tentativa da sua utilização como candidato tampão, de que dificilmente sairá de cara lavada.
É duvidoso ainda que Cavaco seja capaz de dar este rebuçado aos que acendem velas para que aceite o sacrifício. Mas, se o fizer, mesmo chegando à presidência, terá deixado para trás um percurso que o não enobrece.
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