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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Janeiro de 2007 às 00:00
Maher Arar, um engenheiro de sistemas informáticos, pacato cidadão canadiano e tunisino, bom pai de família, trabalhador dedicado, foi envolvido, por engano, no turbilhão da ‘luta antiterrorista’.
Detido nos EUA a seguir ao 11 de Setembro, entregue à segurança síria (num dos voos de ‘entregas especiais’), alegadamente torturado, ganhou agora o seu processo de reparações e desagravo, nos tribunais de Ottawa.
O primeiro-ministro canadiano, ainda mal refeito da gaffe da candidata presidencial francesa, Ségolène Royal (que apoiou a ideia de um Quebeque independente, à moda do general De Gaulle), pediu desculpa pública a Arar. O director da Real Polícia Montada demitiu-se e o governo solicitou aos EUA que retirassem Arar das ‘listas negras’.
Os juízes atribuíram à vítima cerca de quatro milhões de euros (um quarto do pedido) a título de indemnização por danos psíquicos e grave perturbação familiar.
Espera-se que todos os que possuem razões de queixa (fundamentadas e demonstráveis) contra funcionários, estados ou governos, por erros grosseiros como este, recorram igualmente à Justiça.
Mais do que continuar a falar, por alto, dos voos da CIA, é preciso ver claro, distinguir as situações e fazer justiça.
Um suspeito de terrorismo, raptado no centro de uma cidade, quando se dedica a uma actividade pacífica, não é igual àquele que é capturado numa troca de tiros, num esconderijo de militantes. Os dois podem presumir-se inocentes até prova em contrário, mas os ónus que pesam sobre ambos são, obviamente, desiguais.
Por outro lado, é preciso contabilizar os danos: nestas operações de segurança ‘clandestinas’ houve muitas ou poucas vítimas?
E que consequências existem para os erros: demissões, reparações, desculpas? Só fazendo as magistraturas independentes intervir, em tudo isto, podemos readquirir um sentido internacional de ‘normalidade’ e sair desta espécie de estado de excepção em que vivemos, há já cerca de seis anos.
PIOR DO QUE OS INIMIGOS
Nos anos 80, as facções palestinianas, divididas por religião, política e fidelidades pessoais, exterminaram-se amargamente. O caso de Issam Sartawi, assassinado em Montechoro, em 1983, foi um exemplo próximo. Agora, do Jordão ao Mediterrâneo, de Gaza a Ramallah, de Nablus aos campos de refugiados, a luta continua: 40 mortos desde Dezembro num ajuste de contas que não ouve mediadores. Pior do que inimigos, são irmãos.
ANGOLA SUBMERSA
Viana, Cacuaco, Samba, Kiemba Kiaxi. Os lugares que conhecemos, em volta de Luanda, sobrepovoados de gente boa e pobre, estão debaixo de água. Dezenas de mortos, milhares de refugiados: a desesperança feita pessoa. Treinados com ajuda portuguesa, os Fuzileiros locais fizeram milagres. Mas é importante que os políticos, neste segundo maior produtor de petróleo de África, mostrem que sabem proteger, salvar e agasalhar os seus necessitados.
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