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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Julho de 2012 às 01:00

Ao fim de um ano de Governo e quatro revisões da troika, o panorama é desolador e o seguro de vida de Passos, o ministro Gaspar, tombou do altar face à perda de fé no milagre redentor após tanta provação. O balanço é para um Governo com ampla maioria parlamentar, apoio presidencial caloroso, benevolência responsável da oposição e paz social que constitui uma surpresa mundial face à violência do processo de ajustamento.

A estratégia seguida foi a de aluno manteigueiro na esperança de reconhecimento pela mestra de Berlim como pupilo dileto. Face às preocupações de coesão social do memorando luso, a opção foi por um corajoso mergulho num duche escocês financeiro além da troika "custe o que custar". O caminho baseava-se na convicção de que a antecipação de medidas e a solidez do tratamento de choque garantiriam um reconhecimento dos mercados e um relançamento de uma economia purgada de "gorduras do Estado" e de ramos podres. Os custos são conhecidos, dos dois salários e meio perdidos por reformados e funcionários por escolha do Governo à queda de 44% do setor da construção, do bloqueio do crédito pela banca a "desalavancar" ao colapso da restauração, do recorde do desemprego apesar do despedimento low cost e da perda de dignidade dos jovens qualificados a optar entre salário mínimo ou emigração. É por isso que a notícia de que o défice é maior do que o de Sócrates, que as receitas fiscais caíram a pique e o corte na despesa está colado ao desvio dos salários caiu que nem bomba na resignação do bom povo, ao ver que afinal o sacrifício, para além de não ser para todos, nem resultados para Berlim ver garante. É penoso ver Passos vergado à melopeia da natureza externa da crise que o pode obrigar a aceitar de peito ferido a flexibilização de prazo e de dose que a Espanha já garantiu e que a Itália exige para desespero dos fundamentalismos que estão a destruir a Europa. Entretanto, a Europa teve mais uma cimeira histórica e continua a bambolear sobre o precipício no semestre em que para suprema ironia a presidência rotativa será pela primeira vez de um comunista, o cipriota Christofias formado em Moscovo.

(Opinião segundo as regrasdo Acordo Ortográfico)

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