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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Março de 2005 às 00:00
Depois, numa consideração mais geral, a tragédia de há um ano - como outras, que por ocorrerem em zonas do mundo mais afastadas de nós não devem deixar de merecer a mesma importância (o massacre na escola da Ossétia do Norte, provocada por terroristas tchechenos, por exemplo) – mostra-nos a razão pela qual o terrorismo deve ser encarado como uma das maiores ameaças à Humanidade. O profissionalismo ao serviço do terror, imagem de marca também do 11-S, em Nova Iorque, veio para ficar e pode servir outras organizações e outras causas.
Há um ano estava em Madrid. Cheguei à Estação de Atocha poucas horas depois das primeiras explosões. Vi a cara das pessoas. Pude, como nos dias posteriores, escutar as palavras de espanto e de dor. Assisti à forma enérgica como toda a sociedade espanhola reagiu à tragédia, com enorme dignidade, esquecendo os conflitos que também nela subsistem. Percorri, no dia seguinte ao rebentamento das bombas, a emblemática avenida Castellana, e as suas adjacentes, à chuva por entre mais de um milhão e meio de pessoas, das mais de dez milhões que desfilaram à mesma hora por toda a Espanha. Pude escutar a pergunta gritada por todos: “Quem foi?”. Hoje sabe-se quem foi, mas passou um ano e ainda não se sabe como foi possível, toda a extensão da trama que tornou num pesadelo a vida de milhares de famílias, e sobretudo como proceder no mundo inteiro para lutar contra o terrorismo.
Por muitas razões, a Cimeira Internacional sobre Terrorismo de Madrid se justifica e se aplaude, mesmo que tenha falhado, para já, um dos objectivos mais importantes: o acordo sobre a definição de terrorismo. Ainda assim, deve salientar-se a intervenção de Kofi Annan e a sua determinação em que o respeito pelos direitos humanos seja um instrumento essencial do combate contra esse mesmo terrorismo. Se alguma coisa a intransigência política provou nos últimos anos, em especial em Israel e na Palestina, é que a prepotência e o crime são catalisadores deles próprios. Nunca é demais repeti-lo, e o secretário-geral das Nações Unidas tem desempenhado no mundo um importante papel nesta matéria.
Já os outros quatro pontos da sua “estratégia global para lutar contra o terrorismo” merecem apreciação diferente. Desenvolver os países mais pobres, assim como dissuadir alguns governos de apoiarem o terror e impedir que os grupos organizados tenham acesso a meios para atacar são generalidades consensuais que ficam à espera de medidas concretas depois de debatidas ao mais alto nível por alguns dos protagonistas que faltaram à chamada na capital espanhola. Resta um ponto (da estratégia dos cinco “D”) que me parece controverso: “dissuadir os grupos violentos a abandonar a luta terrorista”. É um eufemismo para as negociações que Mário Soares defende com os terroristas e, até prova em contrário, há toda a razão para acreditar que a cedência perante a chantagem não ajude a minimizar a obstinação dos criminosos.
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