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Correio da Manhã

Opinião
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2 de Janeiro de 2005 às 00:00
Na tragédia causada pelo tsunami é impossível afirmar que um dos dramas é mais intenso do que outro.
No entanto, impressionou-nos provavelmente mais a perda da pequena Mafalda, de oito meses. Toca-nos porque respeita a portugueses. Depois, a menina desapareceu junto à mãe, impotente para salvá-la. A tenra idade da vítima tornou-a particularmente indefesa.
Para os portugueses que conhecem Phuket, na Tailândia, há um factor adicional. É daqueles destinos tropicais de praia que é tido como dos mais seguros para crianças. Sobretudo a partir de Dezembro até Abril, as condições atmosféricas são particularmente favoráveis. Era muito difícil prever aquela tragédia.
Há sete anos levei para Phuket a minha filha mais velha, que tem actualmente oito anos de idade. A Ana Rita ainda não tinha completado os doze meses de idade. A assistência médica é de qualidade.
A pequena utilizava constantemente uma bóia muito segura, cujo modelo infelizmente não é comercializado em Portugal. Trata-se de uma camisola de alças aparentemente vulgar, mas que possui junto à cintura uma bóia, transformando-se num confortável colete, que permite liberdade de movimentos. Entrava e saía da piscina à vontade.
A única preocupação que eu tinha era não consentir que a minha empregada doméstica a passasse para o colo de outras pessoas. A miúda é muito loira e desperta atenções. Facilmente poderia desaparecer se alguém tivesse más intenções.
Numa outra ocasião fui a Phuket no mês de Agosto. Por essas alturas, o mar é mais revoltoso do que o habitual. Era a primeira vez que o meu cunhado ia à Tailândia. Estava acompanhado da mulher. Ela entusiasmou-se com as motas de água, que se alugavam na praia. O Paulo não tinha idêntico interesse. Só eu e ela seguimos, cada um no seu jet-ski. Eu era já titular da carta de patrão de costa e sentia-me à vontade naquelas águas do Pacífico.
Contudo, a Vanda nunca tinha tripulado uma mota de água. A umas cinco milhas da praia, tombou. O motor desligou-se, dado que a chave se encontra amarrada ao pulso do piloto. Eu aproximei-me dela e expliquei-lhe como deveria subir e colocar a mota em funcionamento.
Ela subiu sem dificuldade. O pior é que ela teve hesitações ao ligar a ignição. Insistiu repetidamente, até que o motor afogou. Já não havia solução. No meio do oceano, não era local para eu me pôr a secar as velas.
O modelo em que seguíamos era daqueles em que o piloto vai de pé. Era impossível irmos os dois na mesma mota de água. Eu tinha sérias dúvidas de que ela conseguisse deslocar-se sozinha até à praia. Por isso, disse-lhe para manter o colete vestido e permanecer na mota. Eu iria pedir uma mota de dois lugares para levá-la de volta, trazendo atrelado o outro jet-ski.
O diabo foi quando comecei a aproximar-me da praia. O marido dela estava claramente preocupado. Pudera! Só me via a mim. Dirigiu-se à borda de água, ansiosamente perguntando o que se tinha passado.
Eu respondi:
– Afogou-se!
Ia causando um ataque cardíaco. Ele pensava que eu me referia à mulher e não à mota.
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