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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Maio de 2012 às 01:00

O combate ao "urso gordo", que é como Vítor Gaspar qualifica o défice, não justifica o estrangulamento cego da economia. Governar é resolver os problemas das pessoas, tentando, mesmo na adversidade, encontrar soluções que envolvam equilíbrio e sensibilidade social.

Percebe-se o aperto de todos estes meses, reconhece-se que a estratégia convenceu o BCE, o FMI e a UE a manterem a canalização de muitos milhões de euros para Portugal, mas é inaceitável o preço tremendo que mais de um milhão de cidadãos estão a pagar. A avassaladora destruição de emprego ocorrida nos doze meses de vigência do acordo com a troika supera as mais desoladoras expectativas. A angústia de tanta gente lançada para os braços do desemprego e a desesperança de milhares de jovens chocam qualquer alma empedernida. Neste contexto, em nada contribuíram para suavizar o panorama as desajeitadas palavras de Passos Coelho, há dias, sugerindo que a perda de emprego deveria ser também encarada como uma oportunidade.

Não me passa pela cabeça que a afirmação do primeiro-ministro não tenha sido mais do que uma formulação infeliz, mas a mesma denuncia que o Governo parece à toa, apanhado, também ele, com uma perna no ar, pela força desenfreada com que o fenómeno se manifesta. É, de facto, altura de reconhecer que alguma correcção de rota precisa acontecer, mesmo que o objectivo do combate ao défice não abrande, tornando-se visível a necessidade de cultivar consensos que evitem acrescentar uma crise política e a instabilidade das ruas à disrupção económica e ao drama social a que o País assiste.

Nesse sentido, foi um colossal erro político o envio para Bruxelas do Documento de Execução Orçamental sem consulta ao PS. É por estas e por outras que a História nos lembra os inúmeros casos que comprovam que o poder não se ganha: perde-se. As lições que vêm da Grécia, de França e até da Alemanha entram pelos olhos dentro. A decisão de permitir que desempregados possam acumular parte do subsídio com um salário, desde que inferior ao anteriormente auferido, embora constitua um pequeno passo, tenta romper com a noção de insensibilidade e frieza de que as políticas governamentais vêm parecendo impregnadas.

Coincidiu com outra resolução importante: os cortes nos custos da produção eléctrica. Já não era sem tempo, num país desamparado, com indígenas a acotovelarem-se nos saldos do Pingo Doce e à beira do pânico que os ventos gregos para cá empurram.

SOLTAS

PALAVRAS CERTEIRAS

Ferreira Leite não se coibiu de dizer que, quando se alteram as regras da Segurança Social, uma nova classe de pobres, sem capacidade para recuperar, pode surgir. Alertou mesmo para os perigos implícitos na violação do contrato entre cidadãos e Estado quanto às pensões de reforma. Tiro em Gaspar. 

LIMPEZA GERAL

É insustentável a manutenção de Júlio Pereira como secretário-geral do Sistema de Informações. (SIRP ). As trapalhadas que abanam a espionagem portuguesa e a descredibilizam gravemente obrigam a actuações firmes e rápidas. Não se percebem as hesitações de Passos Coelho numa matéria que exige clareza total. 

A ÁRVORE E A FLORESTA

Um árbitro português vai estar na final da Champions.Pedro Proença foi escolhido pela UEFA para dirigir o mais importante jogo da época. O presidente do Conselho de Arbitragem aproveitou para dizer que assim se reconhece o bom nível dos nossos árbitros. Será que ele acredita mesmo nisso ? 

NOTAS (Escala de 0 a 20)

EDUARDO LOURENÇO

17 - Recebeu o Prémio Pessoa relativo a 2011. Uma distinção que presta homenagem a um dos maiores vultos do pensamento português contemporâneo. 

9- ÁLVARO S. PEREIRA

A coragem que revelou ter para cortar custos na electricidade não apaga as marcas trágicas do desemprego galopante: há mais de um milhão sem trabalho. 

7 - MANUEL PINHO

"Esqueceu--se" de falar da construção da barragem do Tua quando candidatou o Alto Douro Vinhateiro a Património Mundial. A UNESCO quer travar a obra. 

7 - MÁRIO FIGUEIREDO

Viu a Federação chumbar a proposta de alargamento da Liga. Cai uma das suas promessas emblemáticas e demagógicas, cegas à real situação dos clubes. 

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