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Correio da Manhã

Opinião
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3 de Setembro de 2003 às 00:00
O "Big Brother" mostrou um Portugal que tinha vergonha de si próprio e que, de repente, trocou o xaile do Fado pelo televisor. O caso Casa Pia mostra um país que quer ajustar as contas com um silêncio de séculos. De preferência em directo. Os próprios advogados, como os juízes ou mesmo o Procurador-Geral da República, não se furtam às imagens. E falam, mesmo quando deveriam privilegiar o silêncio. Portugal é um país que, a começar por muitos dos seus responsáveis, procura a justiça quando olha para a televisão. E é por isso que, por acção dos principais intérpretes que compraram detergentes para mostrar que a sua roupa é branca, a suja está cada vez mais escondida. Casos como o da Casa Pia entregam-se hoje ao domicílio como pizzas deliciosas. Esta é a verdadeira telenovela da vida real, mesmo que um debate como o da RTP 1, na noite de segunda-feira, tenha mostrado que há quem, na justiça, tenha inteligência e sentido de decoro. O problema é que a justiça portuguesa se deixou enfeitiçar pela imagem. Por alguma razão o juiz Rui Teixeira é mostrado várias vezes ao dia de blusão de ganga. Mas isso é o Portugal imberbe: quando faz calor, arde metade do país. Quando chove 30 minutos, Lisboa fica alagada. Quando se concretiza uma acção de segurança única, um fotógrafo do Correio da Manhã, tira fotografias de todos os intérpretes. Ainda bem que não era um terrorista. Este é um país, e uma justiça, com pés de barro. E ainda não percebeu isso.
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